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Projeto MSF abre espaço para que adolescentes no Zimbabwe deixem de ser apenas pacientes e sejam parceiros ativos na construção dos cuidados de saúde
Com apenas 21 anos, Thormilson Thompson assume uma responsabilidade que ultrapassa largamente a idade dele, ao ajudar a moldar a forma como os serviços de saúde são prestados a milhares de adolescentes.
E não carrega essa responsabilidade sozinho.
Juntamente com um pequeno grupo de jovens, Thompson integra o Comité de Aconselhamento para Adolescentes, um órgão criado para garantir que o programa de saúde para adolescentes da Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Mbare, Matapi e Epworth responda às necessidades reais de adolescentes e jovens, tanto ao nível das clínicas como nas comunidades.
No Zimbabwe, muitos adolescentes enfrentam estigma, receio de julgamento, falta de confidencialidade e escassez de espaços pensados para eles. Estas barreiras acabam por afastá-los de serviços essenciais de saúde sexual e reprodutiva.
Lançado em 2024, o comité, composto por 12 membros, reflete a diversidade da juventude do Zimbabwe. Integra mães adolescentes, jovens que consumiram drogas no passado, jovens trabalhadores do sexo e estudantes, reunindo perspectivas que espelham as realidades vividas por adolescentes em todo o país.
O comité reúne-se de três em três meses para analisar os progressos e apresentar recomendações à MSF sobre melhorias necessárias. Para além dos encontros formais, os membros articulam-se com outras organizações, partilham experiências e recorrem a plataformas como o WhatsApp para manter os colegas informados e mobilizar jovens durante as atividades de proximidade.
O Comité de Aconselhamento vale a pena porque somos a voz dos jovens neste projeto. Thormilson Thompson – jovem que participa no Comité de Aconselhamento para Adolescentes
O Comité de Aconselhamento vale a pena porque somos a voz dos jovens neste projeto.
Thormilson Thompson – jovem que participa no Comité de Aconselhamento para Adolescentes
“Enquanto jovens e membros desta comunidade, conhecemos os pontos críticos. Estamos na melhor posição para aconselhar a MSF”, conta Thompson.
O comité funciona como ponte entre as clínicas e a comunidade, de modo a combater a desinformação, incluindo rumores de que os serviços da MSF são pagos, e garante que os adolescentes sabem que os cuidados são gratuitos e acessíveis.
Através do Comité de Aconselhamento para Adolescentes, os jovens deixam de ser apenas pacientes e passam a ser parceiros ativos na construção de cuidados de saúde pensados para eles. Até ao momento, os contributos do comité ajudaram não só a melhorar os serviços, mas, sobretudo, a garantir que são relevantes, adequados e alinhados com as necessidades dos jovens em Mbare, Matapi e Epworth.
Uma das principais recomendações foi a criação de atividades de proximidade em horário noturno, pós-laboral, destinadas a adolescentes que não conseguiam participar nas sessões durante o dia e, desde então, o número de jovens a recorrer aos serviços aumentou.
Só em 2025, os serviços apoiados pela MSF nos três locais, Mbare, Matapi e Epworth, registaram mais de dez mil consultas a adolescentes, um aumento significativo face às 8481 em 2024 e às 7907 em 2023. Os adolescentes entre os 15 e os 19 anos representaram a maior fatia em 2025, com 4732 consultas.
No mesmo período, a MSF trabalhou com jovens da mesma idade formados (educadores de pares) e com membros do comité oriundos de Mbare, Matapi e Epworth para identificar os locais mais frequentados pelos jovens e onde o apoio era mais necessário. Através desta iniciativa, a equipa chegou a 24.475 adolescentes na comunidade e a mais 25.943 em instalações de saúde, no âmbito das atividades de proximidade.
Somos os ouvidos da MSF. Dizemos o que resulta e o que não resulta. Thormilson Thompson – jovem que participa no Comité de Aconselhamento para Adolescentes
Somos os ouvidos da MSF. Dizemos o que resulta e o que não resulta.
Para adolescentes como Yvonne, que frequenta a Clínica Amiga do Adolescente em Mbare, o impacto é visível. Yvonne fala com confiança sobre a própria saúde e sobre o futuro, algo que ela atribui ao ambiente de apoio que encontrou ali.
“Os serviços que recebemos aqui são muito bons. Levantamos a nossa medicação sem problemas de stock. Enquanto esperamos, temos sessões de educação para a saúde e tempo para jogar jogos. A equipa é simpática e os voluntários compreendem as nossas necessidades.”
Para além dos cuidados relacionados com o VIH, a clínica disponibiliza vários outros serviços integrados no pacote de saúde destinado aos adolescentes.
“Para além dos antirretrovirais (ARV), recebemos pensos higiénicos, contracetivos, preservativos e tratamento para outras doenças, mesmo que não estejam relacionadas com a saúde sexual e reprodutiva. Sinto-me à vontade para ir à clínica sempre que preciso.”
Nelson, hoje com 22 anos, começou a recorrer aos serviços em Mbare em dezembro de 2023. Nasceu com VIH e anteriormente levantava a medicação noutras instalações.
“Noutras clínicas, estamos misturados com toda a gente, pessoas de idades diferentes e com necessidades diferentes. Aqui, temos uma clínica só para nós e os serviços são gratuitos”, conta.
O que mais o marca é o apoio entre colegas.
Esta clínica facilita o apoio entre adolescentes, porque encontramo-nos aqui. Nelson – paciente da MSF na Clínica Amiga do Adolescente
Esta clínica facilita o apoio entre adolescentes, porque encontramo-nos aqui.
Nelson – paciente da MSF na Clínica Amiga do Adolescente
Para Mirabelle Gavi, integrar o comité reforça o trabalho que desenvolve no apoio à saúde sexual e reprodutiva, empoderamento juvenil e prevenção do consumo de substâncias.
“Falar sobre problemas sem existirem serviços não faz sentido”, frisa. “As pessoas não te vão levar a sério.”
Mirabelle, que é também deputada júnior e antiga presidente júnior, está no último ano na Escola Secundária de Epworth. Encaminha regularmente colegas e membros da comunidade para os serviços da Médicos Sem Fronteiras. Recorda-se de ter chamado a atenção para Solani, uma zona de maior risco na cidade de Epworth, que não estava a ser alcançada pelos educadores de pares. A MSF respondeu ao destacar equipas de proximidade para essa área.
“Isso fez-me sentir orgulhosa, feliz e honrada por fazer parte do comité”, recorda.
Para reforçar ainda mais a participação da comunidade, a MSF introduziu caixas de sugestões e inquéritos de satisfação dirigidos aos pacientes. Os membros do comité analisam e discutem esse feedback com as equipas da MSF, contribuindo para orientar decisões e melhorar os serviços.
Atualmente, a MSF apoia serviços adaptados a adolescentes em três locais distintos: a Clínica Amiga do Adolescente de Mbare, liderada por enfermeiras e com a disponibilização de medicamentos; o Centro Juvenil de Matapi, dinamizado por pares e apoiado duas vezes por semana por uma enfermeira e uma assistente social de Mbare; e o Centro Juvenil de Epworth, também liderado por pares, com o acompanhamento de uma enfermeira e de uma assistente social três dias por semana.
Em conjunto, estes espaços oferecem educação para a saúde, rastreio e testagem do VIH, apoio social e encaminhamentos, de modo a garantir que os adolescentes tenham acesso a cuidados em ambientes concebidos em função das necessidades dos mesmos.
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