A violência indiscriminada e a punição coletiva em Gaza têm de acabar

Cerca de 2,2 milhões de pessoas estão atualmente presas na Faixa de Gaza, onde os bombardeamentos indiscriminados transformaram uma crise humanitária crónica numa catástrofe total

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© Mahmud Hams/AFP

A Médicos Sem Fronteiras (MSF) está horrorizada com o brutal assassinato de civis em larga escala perpretado pelo Hamas e com os intensos ataques a Gaza que estão a ser levados a cabo por Israel. A MSF pede a interrupção imediata do derramamento indiscriminado de sangue e sublinha a necessidade de se estabelecerem espaços e passagens seguras para as pessoas se conseguirem proteger. Deve também ser facilitado um acesso seguro a recursos básicos, como alimentos, água e instalações de saúde. As provisões humanitárias essenciais, como medicamentos, equipamentos médicos, alimentos, combustível e água, devem poder entrar sem restrições no enclave de Gaza. Para facilitar essa circulação de recursos, a passagem de fronteira de Rafah com o Egito tem de ser aberta e os bombardeamentos no local de passagem devem cessar.

Cerca de 2,2 milhões de pessoas estão atualmente presas na Faixa de Gaza, onde os bombardeamentos indiscriminados transformaram uma crise humanitária crónica numa catástrofe total. Mais de 300 profissionais da MSF estão em Gaza – alguns perderam as casas onde viviam, ou membros da famílias e tem sido quase impossível para se deslocarem.

 

Dizem-nos que desta vez é diferente. Desta vez, após cinco dias, já foram registadas 1 200 mortes. O que é que as pessoas podem fazer? Para onde é que devem ir?

– Matthias Kennes, coordenador-geral de MSF em Gaza

 

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Algumas áreas de Gaza ficaram destruídas após bombardeamentos. © MSF, 2023

“Os jatos de combate estão a destruir ruas inteiras, quarteirão por quarteirão. Não há lugar para as pessoas se esconderem, não há tempo para descansar”, avança o coordenador-geral da MSF em Gaza, Matthias Kennes. “Alguns lugares estão a ser bombardeados há várias noites consecutivas. Sabemos como foi em 2014 e 2021, quando milhares de pessoas morreram. Cada vez que os nossos colegas médicos vão para o trabalho, não sabem se voltarão a ver as casas deles inteiras ou as famílias novamente”, sublinha Kennes.

“Eles dizem-nos que desta vez é diferente. Desta vez, após cinco dias, já foram registadas 1 200 mortes. O que é que as pessoas podem fazer? Para onde é que devem ir?”, questiona o coordenador-geral.

Milhões de homens, mulheres e crianças estão a enfrentar uma punição coletiva na forma de um bloqueio total, bombardeamentos indiscriminados e a ameaça constante de uma batalha terrestre. É preciso estabelecer espaços seguros e permitir a entrada de provisões humanitárias em Gaza. Os feridos e doentes têm de receber atendimento médico. As instalações e equipas médicas têm de ser protegidas e respeitadas; hospitais e ambulâncias não podem ser alvos.

O bloqueio imposto pelo governo israelita, incluindo a retenção de alimentos, água, combustível e eletricidade é inaceitável. Após 16 anos de bloqueio militar à Faixa de Gaza, as estruturas médicas estão enfraquecidas. O bloqueio não dá tréguas aos pacientes que são afetados pelos combates, nem às equipas médicas, e representa um bloqueio internacional de artigos que salvam vidas. A entrada dessas provisões e de profissionais médicos tem de ser facilitada com urgência.

“A equipa médica relata que nos hospitais do Ministério da Saúde estão a ficar sem anestésicos e analgésicos”, relata o coordenador médico da MSF em Gaza, Darwin Diaz. “Transferimos provisões médicas para dois meses das nossas reservas de emergência para o hospital de Al-Awda, e agora usámos três semanas de inventário em três dias.”

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Destruição em Gaza. © MSF, 2023

A circulação da equipa da MSF, incluindo os profissionais médicos, tem sido extremamente limitada desde sábado. Não foi possível conseguir passagens seguras para prestar apoio às equipas médicas palestinianas que trabalham dia e noite para tratar os feridos. Homens, mulheres e crianças que não participam nas hostilidades não têm um refúgio seguro para onde ir. Os profissionais da MSF estão a testemunhar um nível de destruição que pode ter excedido quaisquer precedentes. Dois dos hospitais onde a MSF presta apoio, Al-Awda e o Hospital Indonésio, sofreram danos em ataques aéreos, enquanto a própria clínica da MSF ficou danificada depois de uma explosão na segunda-feira.

 

“Transferimos provisões médicas para dois meses das nossas reservas de emergência para o hospital de Al-Awda, e agora usámos três semanas de inventário em três dias.”

– Darwin Diaz, coordenador médico de MSF em Gaza.

 

Atualmente, a MSF desenvolve atividades de forma autónoma numa clínica da organização, apoia o hospital Al-Awda, o hospital Nasser e o Hospital Indonésio em Gaza. No dia 10 de outubro, a MSF reabriu uma sala de operações em Al-Shifa, para receber pacientes com queimaduras e traumas. A organização também doou provisões médicas ao hospital Al-Shifa e continuará a fornecer apoio aos restantes hospitais. As equipas em Jenin, Hebron e Nablus estão a avaliar ativamente as necessidades médicas na Cisjordânia, à medida que a violência escala. Pelo menos 27 palestinianos foram mortos em ataques de colonos e em confrontos com o exército israelita.

Os civis, a infraestrutura civil e as instalações de saúde devem ser protegidos em todos os momentos. A MSF pede ao governo de Israel que cesse esta campanha de punição coletiva contra toda a Faixa de Gaza. As autoridades e facções israelitas e palestinianas têm de estabelecer espaços seguros. A entrada de apoio humanitário, alimentos, água, combustível, medicamentos e equipamentos médicos na Faixa de Gaza tem de ser urgentemente facilitada. Se tal não acontecer, perder-se-ão ainda mais vidas.

 

 

Nota:

Na sequência da ordem de deslocação emitida por Israel, a MSF emitiu uma atualização adicional a 13/10:

A MSF confirma que as equipas internacionais no Norte de Gaza, compostas por cerca de 20 pessoas se deslocaram para o Sul durante a noite.

Quanto aos nossos profissionais palestinianos: é atualmente difícil verificar a situação de todos os nossos 300 colegas. Sabemos que alguns deles estão atualmente a tentar partir para o Sul com as famílias deles. A MSF está a tentar apoiá-los na procura de abrigo. Outros, principalmente a equipa médica, permanecerão no Norte para tentar prestar cuidados aos doentes e feridos.

A ordem de evacuação dada pelo exército israelita a 1,1 milhão de pessoas no Norte da Faixa de Gaza é um ultimato ultrajante e irresponsável.

Além disso, reagrupar um número tão grande de pessoas num espaço com apenas alguns quilómetros quadrados só exacerbará a crise humanitária existente.

Quanto aos muitos civis que não poderão deixar a região Norte, estamos extremamente preocupados com o destino deles quando o ultimato israelita expirar.

A MSF solicita oficialmente a identificação de zonas seguras não afetadas pelo conflito para populações incapazes de fugir, incluindo hospitais.

(13/10/2023)

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