Nem os perigos, nem as políticas repressivas dissuadem os migrantes da sua jornada para os EUA

Os fluxos migratórios continuam a intensificar-se, apesar das políticas restritivas, dos perigos e da violência maciça. A Médicos Sem Fronteiras (MSF) enviou 18 equipas para múltiplos pontos do percurso migratório com o objetivo de providenciar cuidados médicos e humanitários a migrantes em necessidade

A rota migratória entre a América Central e os Estados Unidos (EUA) é uma das mais perigosas do mundo para as pessoas migrantes. A Médicos Sem Fronteiras (MSF) enviou 18 equipas para múltiplos pontos do percurso migratório com o objetivo de providenciar cuidados médicos e humanitários a migrantes em necessidade.
© Esteban Montaño/MSF

A rota migratória entre a América Central e os Estados Unidos (EUA) é uma das mais perigosas do mundo para as pessoas migrantes. Partem dos países de origem em busca de segurança e bem-estar, mas o que encontram durante a jornada por entre a densa selva do estreito de Darién, no Sul do Panamá, o Norte do México e o Triângulo Norte da América Central (Guatemala, Honduras e El Salvador) é exatamente o oposto – uma espiral de riscos, violência e dificuldades que lhes ameaça a vida a cada segundo.

É isto que nos diz John, um homem dos Camarões que passou três dias na selva a comer apenas amendoins. Barbara, da Venezuela, replica-o também: com o filho de seis anos, atravessou a fronteira da Nicarágua para as Honduras através de caminhos perigosos, para não ser avistada pelas autoridades. E Enel, que vive agora nas ruas de Reynosa, no Norte do México, reafirma também os riscos desta jornada.

A pandemia, políticas restritivas e violência

A pandemia de COVID-19 serviu de desculpa para o governo dos EUA impor uma das políticas de migrações mais regressivas dos últimos tempos: o Título 42, que já permitiu a expulsão imediata de quase dois milhões de requerentes de asilo para cidades perigosas no México, com o pretexto de proteger a saúde pública no país.

Mas não é a única política repressiva que afeta migrantes que passam pela região. No Sul do México, são constantemente realizadas buscas e montados postos de controlo todos os dias, atuando como barreiras para as pessoas que se dirigem para Norte. Do mesmo modo, o governo hondurenho impôs, durante meses, uma multa de mais de 200 dólares americanos para todos os migrantes que entrassem no país sem os documentos em ordem.

Porém, estas violações dos direitos humanos são ineficazes em travar os fluxos migratórios e, para além de limitarem o acesso a serviços essenciais, têm ainda outro efeito perverso: empurram as pessoas para as mãos de poderosas redes criminosas presentes na região. A migração tornou-se num negócio multimilionário, onde os raptos, roubos, a extorsão e até o tráfico humano são perpetuados pela impunidade apoiada na inação e cumplicidade das autoridades.

Apesar de tudo isto e contra todas as probabilidades, o número de pessoas que realiza estas jornadas continua a aumentar. Conforme um relatório da Organização Internacional para as Migrações, entre janeiro e abril deste ano, os encontros entre migrantes e autoridades de fronteira no Sudoeste dos EUA aumentaram em 46 por cento em relação ao mesmo período do ano passado. E de acordo com dados do Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, o México é o terceiro país, apenas atrás da Alemanha e dos EUA, com o número mais elevado de requerentes de asilo. Só em 2021, houve mais de 130 000 pedidos, segundo as autoridades mexicanas.

Foi assim que a migração no continente se tornou numa permanente crise humanitária. Para além dos impactos causados pelas barreiras administrativas e pela violência maciça, as pessoas que viajam pela região enfrentam muitas limitações no acesso a bens e serviços essenciais: comida, abrigo e educação. Sob estas condições, o bem-estar físico e emocional dos migrantes é fortemente afetado.

Responder às necessidades na região

As equipas da Médicos Sem Fronteiras (MSF) estão a trabalhar no centro de migração de San Vicente. Providenciam cuidados médicos primários, serviços de enfermagem e apoio à saúde mental a sobreviventes da selva de Darién, uma área pantanosa de 5 000 quilómetros quadrados que separa a América do Sul da América Central.

John é um dos sobreviventes. Oriundo dos Camarões, alimentou-se apenas com amendoins durante grande parte da jornada. Felizmente, as dificuldades que enfrentou deixaram-lhe apenas marcas de picadas de mosquitos e dores no corpo, que o motivaram a procurar apoio médico. Os seus companheiros de viagem não tiveram tanta sorte: “Vi pessoas a morrer e não consegui ajudá-las”, recorda.

Barbara e Enel também receberam assistência da MSF ao longo do caminho que percorreram entre o Panamá e a fronteira Norte do México. Entre janeiro e junho deste ano, as equipas da organização médico-humanitária providenciaram mais de 54 000 consultas de cuidados primários, 5 500 consultas individuais de saúde mental e cerca de 5 000 ações de assistência social. Durante este período, foram distribuídos também mais de 23 500 kits de hidratação e higiente, e aproximadamente 65 000 pessoas foram sensibilizadas através das atividades de promoção de saúde.

“Os principais problemas de saúde que as nossas equipas observam durante estas consultas são respiratórios, gastrointestinais e de pele, que se devem principalmente às condições precárias em que as pessoas vivem”, esclarece o vice-coordenador-geral da MSF no México, Helmer Charri.  “Além disso, as pessoas sofrem de dores musculares, ferimentos nos pés e até mesmo de alguns traumas físicos, devido às longas caminhadas durante o percurso”, frisa ainda.

Os migrantes que se dirigem para os Estados Unidos têm origens e passados diversos. Apesar de estarem todos em situações de vulnerabilidade, o impacto das migrações é mais profundo nas crianças, nos menores não-acompanhados, nas mulheres grávidas e nas pessoas idosas. Também em circunstâncias vulneráveis estão as pessoas da comunidade LGBTIQ, das comunidades indígenas, migrantes extracontinentais, sobreviventes de violência sexual e quem não sabe falar espanhol.

“Normalmente, a maioria das pessoas é sujeita a violência no seu local de origem. No entanto, a violência persiste também ao longo da jornada e provoca consequências sérias na saúde mental”, sublinha o coordenador médico da MSF no México e na América Central, Reinaldo Ortuno.

“E mais, a incerteza da sua situação e as separações familiares, entre outros fatores, influenciam o desenvolvimento de respostas emocionais, como a ansiedade, o stress, medos excessivos, preocupações constantes e, em casos mais graves, transtornos psicológicos”, explica Reinaldo Ortuno.

Na clínica móvel da MSF em Danlí, no Leste das Honduras, Barbara espera que o marido receba o tratamento para a gripe que apanhou nos últimos dias da viagem. O filho de seis anos aproveita o tempo e o espaço para socializar com outras crianças, que também se dirigem para Norte.

“Queremos chegar aos EUA para trabalhar, e conseguir pagar a cirurgia aos pulmões que o meu filho precisa para melhorar a saúde”, frisa Barbara. “Não percebo porque é que nos dificultam tanto a vida. Tudo o que queremos é uma vida melhor”, conclui.

 

Em pontos diferentes do percurso migratório entre a América Central e os EUA, as equipas da Médicos Sem Fronteiras providenciam apoio confidencial sem custos a pessoas que se deslocam pela região, através de serviços médicos e psicológicos, promoção de saúde, terapia e prestação de informações.

A MSF é uma organização imparcial, neutra e independente, que trabalha sob os princípios da ética médica. Migrar, ser tratado com dignidade e requerer asilo em segurança são direitos que devem ser respeitados.

 

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