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Profissional de MSF compartilha histórias de pacientes sírios
1 de novembro de 2013 – Charlotte, psicóloga da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF), compartilha mais algumas vivências referentes ao período de três meses que passou na Síria, atendendo pacientes do projeto.
Fortes laços com a família e com a comunidade“O que é realmente surpreendente é a solidariedade entre as comunidades e as famílias. Quando as pessoas estão famintas, podem recorrer a seus vizinhos que compartilharão o pouco que têm, dando-lhes algo para comer. Lembro-me do caso de uma pequena menina com queimaduras graves que precisava de alguém para ficar com ela no hospital, para ajudá-la a comer e a se lavar. Sua mãe tinha outros filhos adolescentes que precisavam dela e, por isso, ela não podia se ausentar de casa pelas longas semanas ou meses que os pacientes precisam ficar no hospital. Mas sua vizinha tinha filhos mais velhos e independentes e, imediatamente, ofereceu-se para ajudar quando soube o que havia acontecido, ainda que ela não conhecesse a menina muito bem. Ela ficou com a criança no hospital dias e noites por semanas, até a menina morrer devido aos terríveis ferimentos e todos voltarem para suas casas.”
A garotinha que não queria falarEntre os pacientes que precisavam de suporte psicológico havia muitas crianças perdidas após terem sido forçadas a fugir de suas casas com suas famílias. Esses jovens pacientes haviam sido feridos ou haviam testemunhado terrível violência, como uma menina de seis anos que Charlotte pôde acompanhar.“Essa menina, desde que viu seu irmão ser atingido por uma bomba, tornou-se quase que completamente muda. Ela desenhava muitas figuras com cores brilhantes, mas os desenhos eram bastante básicos se comparados com os que outras crianças da mesma idade podem fazer. Ela utilizou excesso de cor, sem um formato humano visível, para reproduzir a imagem do que havia acontecido com seu irmão. As cores representavam algo específico que eu tentei entender por meio de um jogo de perguntas e respostas, como enigmas, para garantir nosso relacionamento terapêutico.
Ela ficou bastante feliz ao me deixar entrar em seu mundo, mas em seu próprio ritmo, então tive que fazer as coisas bem devagar e respeitar o imenso sofrimento expresso em seus desenhos. Ela respondia às minhas perguntas acenando com a cabeça e, por vezes, com palavras sucintas faladas de maneira tão suave que eu tinha dificuldade para ouvi-las. Ela pressionava a caneta tão fortemente no papel a ponto de rasgá-lo e me parecia que a forma feroz com que coloria as formas vagas permitia a ela esvaziar sua cabeça e os sentimentos que nutria em si.
Ao final de cada sessão, ela estava muito feliz ao me dar seu desenho, a deixá-lo comigo, como se esta fosse uma forma de amenizar o sofrimento que ela havia deixado de lado. Mas ela queria algo em troca, um pequeno brinquedo, um objeto. Talvez para preencher o espaço que a estava comendo por dentro, ou talvez porque o nosso relacionamento fosse mesmo baseado em uma troca. Durante nossas sessões, ela oferecia sua angústia como um presente, um processo difícil e doloroso para o qual ela precisava de encorajamento. E com apenas seis anos, foi preciso muita coragem. Isso aconteceu há diversos meses e a mãe dela está viva e com ela. A menina não tem ferimentos físicos; suas feridas são invisíveis e onipresentes.”
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