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Numa resposta humanitária essencial no Norte de França, as equipas móveis da MSF prestam assistência ginecológica e psicológica a mulheres deslocadas que enfrentam um cenário de extrema precariedade
No Norte de França, perto de Dunquerque, mais de mil pessoas deslocadas sobrevivem em campos improvisados, com um acesso extremamente limitado aos cuidados de saúde. Entre esta população encontra-se um número crescente de mulheres isoladas em áreas remotas dos campos e sobreviventes de violência. Ao longo dos últimos meses, a Médicos Sem Fronteiras (MSF) tem vindo a prestar-lhes, todas as semanas, cuidados ginecológicos e apoio psicológico muito necessários através de uma clínica móvel.
Victorine Sagot-Priez, psicóloga, e Charlotte Thivoyon, parteira, partilham as suas experiências de trabalho num ambiente altamente instável, com consequências físicas e psicológicas profundas para as mulheres deslocadas.
Charlotte: “As pacientes procuram-me frequentemente para receber cuidados pré-natais, uma vez que as gestações delas não têm sido acompanhadas regularmente ou não tiveram qualquer tipo de acompanhamento. Algumas mulheres necessitam de cuidados de aborto seguro: nesses casos, articulo com o serviço de planeamento familiar do hospital e acompanho-as ao longo de todo o processo. Outras falam-me de possíveis infeções sexualmente transmissíveis, particularmente após terem sofrido violência sexual. Além disso, muitas mulheres sofrem de dores menstruais intensas, frequentemente associadas à mutilação genital feminina a que foram submetidas nos países de origem. No entanto, independentemente do problema médico que apresentam, a prioridade para estas mulheres é encontrar um local seguro para dormir, um sítio para se higienizarem, algo para comer, comida para os filhos ou obter medicamentos. Embora estejam preocupadas com a gravidez e com a saúde, a principal preocupação destas mulheres é, acima de tudo, sobreviver. Neste contexto de extrema precariedade, onde as necessidades básicas não estão garantidas, é-lhes impossível receber cuidados médicos regulares.”
Victorine: “As mulheres que encontro sofrem principalmente de ansiedade, que procuram aliviar. Também relatam frequentemente pensamentos repetitivos, insónias, flashbacks, hipervigilância e sintomas físicos, incluindo dificuldade em respirar e batimentos cardíacos acelerados. Muitas das nossas pacientes encontram-se num estado de ambivalência psicológica, divididas entre a impossibilidade de desistir de atravessar o Canal da Mancha para chegar ao Reino Unido e o medo de morrer. Esta ambivalência é agravada pelos eventos traumáticos vividos durante a viagem de migração e pelas condições de vida nos campos, fabricadas para dissuadi-las de permanecer em França. “Eles não querem que fiquemos, mas furam os nossos barcos quando tentamos zarpar e destroem as nossas tendas, vezes sem conta”, contou-me uma paciente.
As condições de sobrevivência aqui no Norte de França intensificam o trauma pré-existente e acrescentam-lhe novas camadas, agravando assim os sintomas. Quando uma paciente menciona que tem insónias – uma vez que tem de se manter em alerta toda a noite porque a tenda onde dorme oferece pouca proteção – as sombras de uma pessoa ou os tiros no campo podem espoletar uma memória traumática do passado. Encontro, por vezes, mulheres que estão mentalmente exaustas e que descrevem as suas lutas diárias, particularmente com memórias intrusivas de violações que sofreram – experiências sobre as quais ainda não conseguiram falar. Os cuidados que incluem uma componente ginecológica, combinados com uma abordagem psicológica, são, por isso, particularmente valiosos, pois também permitem a cura através do corpo.”
Victorine: “Encaro cada consulta com uma paciente como um encontro único; posso nunca mais voltar a vê-la. Falar sobre as experiências que enfrentou pode ser um primeiro passo para a recuperação. No entanto, é um ato de equilíbrio delicado, realizado em parceria com as nossas pacientes, uma vez que estas mulheres continuam expostas à violência num ambiente inseguro que pode espoletar memórias de traumas passados. Muitas mulheres sentem vergonha e culpa pela violência que sofreram. Conheci mulheres que nunca tinham falado com ninguém sobre o que tinham passado, convencidas de que a culpa era, em parte, sua.”
Charlotte: “Aqui, estamos a chegar a pessoas que estão completamente excluídas do sistema de saúde, o qual, de qualquer forma, não está adaptado à situação delas. Apenas vejo pacientes num estado de extrema precariedade, com quem ninguém se preocupa, a não ser as associações que prestam assistência humanitária básica na região. Não sabemos se a pessoa irá atravessar para o Reino Unido na mesma noite em que a conhecemos ou no dia seguinte; não sabemos se as voltaremos a ver ou se irão comparecer à consulta de acompanhamento.”
Charlotte: “Criar uma ligação é complicado porque, como disse, podemos ver as nossas pacientes apenas uma vez. As mulheres com quem trabalhamos podem atravessar o Canal da Mancha a qualquer momento e, assim que chegam ao Reino Unido, os cuidados médicos que estávamos a prestar terminam.
Assim, sabendo disto, tento planear com a maior antecedência possível. Por exemplo, no caso das nossas pacientes grávidas, sei que, durante o parto, a assistência no hospital será complicada, uma vez que não terá havido qualquer acompanhamento prévio da mãe ou do bebé. Ninguém saberá, por exemplo, se a minha paciente pode ter um parto vaginal; as equipas médicas, mesmo no serviço de urgência, não terão a informação necessária para avaliar o estado dela. Certifico-me que explico sempre claramente à paciente os sinais de emergência ou de uma condição grave que exija a sua ida urgente ao hospital. Garanto que a paciente tem pleno conhecimento do número de emergência 112 e que sabe o que fazer se tiver contrações ou hemorragias. Isto também significa trabalhar com as mulheres para as preparar para várias eventualidades, tais como as consequências da mutilação genital feminina no parto, e informá-las sobre a opção de solicitar uma epidural. Se nunca deram à luz na Europa, podem não estar necessariamente a par disso.”
Victorine: “É muito importante estabelecer uma ligação com estas mulheres que procuram segurança; é o primeiro passo para prestar cuidados. Estas mulheres tiveram de deixar os países de origem para escapar ao casamento forçado ou à mutilação genital feminina, porque não podiam viver livremente ou estavam expostas à violência ou a conflitos armados. A consulta proporciona-lhes um espaço para construir a confiança necessária para se libertarem dos padrões de controlo em que frequentemente se encontram presas. Estabelecer uma relação de confiança é uma ferramenta terapêutica fundamental para as ajudar a continuar a reconstruir a sua autoconfiança e as suas vidas.”
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