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Por Susana de Deus, diretora-geral de Médicos Sem Fronteiras Brasil, e Eric Stobbaerts, diretor executivo da Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi)
O Brasil é, definitivamente, um país de gigantescos paradigmas. Se, por um lado, busca se consolidar como referência em áreas que envolvem pesquisa e tecnologia, por outro, mantém sob um enorme tapete empoeirado problemas de saúde do século passado. E que continuam sem respostas. A doença de Chagas foi descoberta por um brasileiro, Carlos Chagas, há exatos 106 anos e, quer queiram as autoridades assumir sua relevância, quer não, o cenário pouco avançou em termos de acesso a diagnóstico e tratamento nas últimas quatro décadas. Recentemente, foi a paixão nacional dos brasileiros que garantiu alguma visibilidade a essa doença negligenciada: o jogador Everton Costa, que atuava pelo time de futebol do Vasco, anunciou sua aposentadoria aos 29 anos. Depois de um ano afastado dos gramados por conta de um problema de coração que parecia ter outras explicações, ele foi diagnosticado com a doença de Chagas em meados de fevereiro. Surpresa para muitos, dura realidade para milhares de outros: a doença continua sendo um problema de grande importância para a saúde pública neste país tropical.
Mais de 1 milhão de pessoas estão infectadas, de acordo com dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2015, e cerca de 6 mil morrem anualmente, segundo informações do Ministério da Saúde brasileiro publicadas pela Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical em 2012 e pelo periódico internacional Acta Tropica em 2014. Dia 14 de abril consta no calendário como Dia Mundial de Combate à doença de Chagas. Ainda que não haja motivos para comemoração, é a oportunidade que temos para resgatar o assunto e estimular o debate.
É como diz o ditado: casa de ferreiro, espeto de pau. O Brasil tinha tudo para manter o pioneirismo pós-descobrimento da doença, mas arrefeceu. Concentrou-se em políticas públicas para o enfrentamento da doença ancoradas em ações preventivas de controle vetorial, controle de bancos de sangue, uma vez que a transmissão se dá também por transfusão, e melhorias das condições estruturais de moradia. As medidas adotadas pelo Ministério da Saúde são válidas, mas insuficientes para uma estratégia de combate integral à doença, que envolva tanto a prevenção quanto a atenção médica. Há outras vias de contágio pela doença, a saber: de forma congênita, por meio da ingestão de alimentos infectados com as fezes do vetor, por meio do transplante de órgãos e por acidentes laboratoriais. O não tratamento precoce custa à saúde pública brasileira US$130 milhões por ano e, em todo mundo, a doença de Chagas representa perdas que atingem a marca de US$7 bilhões de dólares por ano, segundo artigo publicado em fevereiro de 2013 por especialistas (Lee BY, Bacon KM, Bottazzi ME, Hotez PJ. Global economic burden of Chagas disease: a computational simulation model, Lancet Infectious Diseases).
A adoção das recomendações de 2010 contempladas na resolução WHA63.20 da OMS no que diz respeito à oferta de diagnóstico e tratamento para a doença nas fases aguda e crônica na atenção primária de saúde é imprescindível para se obter avanços reais no combate à doença. No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) dispõe de estrutura para fazê-lo, mas a realidade é que no país só são notificados e tratados os casos agudos da doença – com raras exceções –, quando é na fase crônica, alguns anos após a infecção, que podem surgir os problemas cardíacos e do sistema digestivo, chegando a causar a morte. E é uma morte silenciosa, facilmente contabilizada como qualquer outra causa que não Chagas, já que os sintomas da doença não deixam evidente que é ela a razão daquele falecimento. Chagas dificilmente vai constar na certidão de óbito – só no Brasil foram oficialmente declaradas 6 mil mortes cuja causa base foi registrada como sendo a doença de Chagas no Departamento de Informática do SUS (DATASUS). Além disso, o Brasil foi, por algum tempo, o único no mundo a produzir o Benznidazol, medicamento utilizado como primeira linha para o tratamento da doença. Hoje, no entanto, falta uma certificação de boas práticas de fabricação concedida pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) o que, consequentemente, dificulta o acesso ao medicamento em âmbito internacional. Hoje, com o fácil deslocamento de pessoas de um extremo ao outro do planeta, herança tão benquista da globalização, a doença de Chagas deixou de ser um problema latino-americano para se tornar uma preocupação mundial. Novos desafios promovem a dispersão da doença, que vive, discretamente, na corrente sanguínea desses viajantes, para além das fronteiras conhecidas dos países considerados endêmicos.
Everton teve relativa sorte. Muito jovem para se aposentar, verdade, mas acabou sendo diagnosticado. Estima-se que, atualmente, 99% das pessoas infectadas não saibam que portam a doença. O diagnóstico é o único caminho possível para que possam ter acesso a tratamento. O que dizer a essas pessoas, obrigadas a suportar a negligência? Sem o treinamento de profissionais de saúde, para que possam identificar sintomas precocemente, diagnosticar e tratar as pessoas, sem protocolos de manejo da doença atualizados, sem a integração de todos os atores envolvidos para que a resposta à doença esteja situada na atenção primária da saúde e ao alcance de todos, não teremos respostas. É preciso, urgentemente, romper com esse ciclo de negligência, mudar esse cenário e encarar a realidade, traduzindo conhecimentos atuais em políticas públicas efetivas integrais e inclusivas. Embora o problema seja secular, enfrentá-lo não significa retroceder e, sim, avançar.
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