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Artigo de opinião escrito por Vickie Hawkings, diretora executiva de MSF Inglaterra
Em 4 de fevereiro de 2016, Londres sediou o encontro de chefes de Estado, ministros e do secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-Moon, para que juntos respondam à crise na Síria. O objetivo da conferência é arrecadar fundos para a resposta humanitária tanto dentro da Síria quanto em países vizinhos, e o evento é uma parceria entre a Organização das Nações Unidas (ONU), a Noruega, o Kuait, a Alemanha e o Reino Unido.
Em teoria, essa conferência tem objetivos louváveis: melhorar a educação e as condições de sustento de refugiados sírios em países vizinhos; responder às necessidades de segurança e proteção de civis na Síria; e arrecadar doações de recursos novas e significativas para apoiar os apelos da ONU, que estão subfinanciados. Os organizadores podem apresentar a si mesmos como promotores da paz e provedores de ajuda, mas incluem os países que são parte do conflito.
Bombas de origens diversas
Apenas alguns meses atrás, o Parlamento britânico votou pela ampliação dos bombardeios ingleses à Síria, marcando a entrada do país como mais uma nação beligerante. Muitos dos demais Estados que compareceram ao evento estão engajados de forma similar na Síria – as pessoas na Síria têm de enfrentar, além das bombas atiradas por seu próprio governo, aquelas provenientes de duas coalizões que envolvem 11 outros países. O próprio David Cameron reafirmou, em 9 de setembro, que o Reino Unido está usando a ajuda como uma alavanca para alcançar seus objetivos políticos. “O Assad tem que cair, o Estado Islâmico tem que cair, e parte disso vai demandar não apenas o dispêndio de recursos, não apenas ajuda, não apenas diplomacia, mas também, ocasionalmente, força militar.” Para humanitários, esse é um alerta vermelho, embora seja familiar.
Misturando ajuda com política
Como já observamos no Afeganistão, na Somália e em outros lugares, a mistura de ajuda humanitária com política e ação militar coloca em risco a habilidade de agentes humanitários de oferecer ajuda de forma neutra e imparcial. Levanta suspeitas entre as pessoas afetadas pelo conflito, que podem questionar se as organizações de ajuda são apenas um braço do governo que as financia. Muitas organizações não governamentais (ONGs) que atuam em áreas de conflito já têm de tomar um enorme cuidado para não serem percebidas como o cavalo de Troia de agendas políticas e, ainda assim, a Conferência para a Síria está cumprindo justamente esse papel. Está, de fato, cooptando a participação da sociedade civil, usando o financiamento internacional adicional como chamariz. Para ONGs que dependem de financiamento externo, é uma escolha categórica – ou você está dentro ou fora.
A beligerância militar e a ajuda humanitária não deveriam jamais, sob quaisquer circunstâncias, ser ofertadas como dois aspectos integrantes de uma mesma agenda. Os políticos que se reuniram em Londres sabem que fazer isso é arriscado, e o cinismo com que continuam a fazê-lo é ainda mais lamentável.
Abstendo-se de responsabilidade
Há também uma tendência política subjacente e mais profunda associada ao objetivo da conferência. Se tudo correr bem, a conferência vai resultar em aumento da ajuda à Jordânia, ao Líbano e à Turquia, para garantir que mais sírios permaneçam na região e não façam a viagem rumo à Europa. Concentrando-se em educação e subsistência, a conferência tem como alvo dois dos principais fatores que levam os sírios a decidirem pela perigosa jornada. A partir desse ponto de vista, começa a parecer que a conferência será utilizada para endossar uma política de contenção. A medida está em acordo com a abordagem de alguns Estados-membros da União Europeia de oferecer ajuda à Síria e aos países vizinhos que abrigam refugiados como forma de absolver a si mesmos da responsabilidade por aqueles que já completaram a jornada.
Para colocar de forma mais categórica, sob o véu da preocupação, trata-se, nesta conferência, de Estados buscando suas próprias agendas para a Síria, cooptando e, portanto, descaracterizando a ajuda humanitária no processo. MSF não compareceu à conferência, pois acredita que a presença pode comprometer a percepção acerca de sua neutralidade e independência – percepções que são vitais para o caso de um dia termos qualquer possibilidade de oferecer cuidados médicos dentro da Síria para as pessoas encurraladas na pior crise humanitária do nosso tempo.
Sinceramente, espero estar enganada, e que a conferência leve os políticos a se concentrarem em ajudar àqueles em desesperadora necessidade. No terrível cerco a Madaya, as pessoas estão literalmente morrendo de fome – 49 pessoas morreram até o momento e ainda estamos contando. Nos 70 hospitais e clínicas apoiados por MSF, mais de 100 pessoas estão morrendo a cada semana vítimas de bombardeios e outros ferimentos relacionados com a guerra – uma pequena fração do impacto por todo o país. Essas pessoas precisam de toda a ajuda que o mundo lhes puder oferecer.
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