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Kelly Cavalete passou seis meses trabalhando em um projeto de Médicos Sem Fronteiras em Huddur
A falta de um governo central e ondas de violência consecutivas fizeram da Somália um dos países onde o trabalho humanitário tornou-se um verdadeiro desafio. A enfermeira cearense Kelly Cavalete Cardoso pôde sentir na pele tamanha responsabilidade. Ela passou seis meses em Huddur, trabalhando em um projeto de Médicos Sem Fronteiras.
No Brasil desde meados de janeiro, Kelly, de 27 anos, conta nesta entrevista como foi viver em um país muçulmano e ter de trabalhar sob rígidas normas de segurança. "Tínhamos que sair sempre acompanhados de escolta armada e jamais podíamos ir sozinhos à cidade", lembra. Abaixo, o relato na íntegra.
Qual foi sua primeira impressão ao chegar na Somália?Kelly Cavalete – Quando desci do avião, o impacto visual foi grande. Tinha muita sujeira, plástico para tudo que é lado. Mas fui recebida por outra enfermeira brasileira que tinha ensinado outras três pessoas da equipe a falar algumas frases em Português. Foi muito legal!
Como era sua rotina no projeto?Kelly – Eu era coordenadora da enfermaria. Eu trabalhava com um supervisor somali e 40 técnicos de enfermagem locais. Chegava no hospital às 7h e ficávamos trabalhando até às 14h30m. Só depois voltávamos para casa, para almoçar e descansar. Descansar só na teoria, porque sempre fazíamos reuniões de planejamento e muitas vezes o chefe de missão tinha que nos obrigar a parar de trabalhar.
Você tinha algum dia de folga? O que fazia?Kelly – Toda a sexta-feira folgávamos. Então em geral na quinta eu organizava uma festinha para a gente poder relaxar. Tocávamos música de várias partes do mundo, inclusive a brasileira, que fazia muito sucesso. Na sexta, quando a situação estava calma a gente podia ir à cidade, mas sempre todo mundo junto e com escolta armada acompanhando. Quando não podíamos, usava o dia para cuidar da minha beleza (risos), lavar roupa ou cozinhar. Fiz muita pizza de camelo!
As equipes que trabalham na Somália têm sempre que andar com escolta armada. Isso foi um problema para você?Kelly – Achei tranqüilo. Eles viajam no mesmo carro que a gente e quando trabalhamos ficam na porta do hospital.
E a instabilidade política, afetou seu trabalho?Kelly – Tivemos três reduções de equipe de campo. Na primeira, eu saí. Na segunda eu fiquei e na última já era hora de eu deixar a missão e voltar para o Brasil. Mas não me senti insegura em nenhum momento porque MSF tem um sistema de informação que deixa todo mundo a par do que está acontecendo.
Por ser um país muçulmano, você teve que adotar algum hábito cultural local?Kelly – A coordenação pede que nós usemos véus para cobrir a cabeça e a camisa de MSF por uma questão de segurança. Mas eu podia usar calça. Uma vez, testei um traje típico que seria usado como uniforme pela equipe somali e todos os pacientes disseram que eu estava mais bonita (risos).
Que tipos de doenças eram mais freqüentes em Huddur?Kelly – Lá o centro médico era dividido em vários prédios. Havia o prédio para consultas gerais, um para maternidade, dois para o setor pediátrico, um outro só para tratamento de kalazar (leishmaniose visceral), outro para tuberculose. Primeiro trabalhei no de consultas gerais, mas em setembro fui transferida para o de tuberculose.
Como fazia para se comunicar com os pacientes?Tínhamos um tradutor para nos ajudar, mas no fim já estava aprendendo algumas coisas em somali. Falava coisas tipo "Como você está?" e eles adoravam. Sempre tentavam me ensinar mais.
Você pretende fazer novas missões?Kelly – Com certeza. Vou visitar minha família e a partir de fevereiro já estou pronta para partir para um novo projeto.
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