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MSF tratou 800 pacientes em um centro de cirurgia em Amã, na Jordânia, mas muitos feridos ainda estão sem assistência
No dia 19 de agosto, dois ataques em Bagdá provocaram a morte de 95 pessoas e deixaram cerca de 600 feridas. Estes ataques particularmente fatais foram um lembrete assustador da violência enfrentada pelo povo iraquiano desde o início da guerra.
Apesar da intensidade do conflito ter diminuído gradualmente nos últimos meses, o Iraque tem sido palco de ataques regulares, sangrentos e indiscriminados por mais de seis anos, com um grande número de vítimas. A mídia as noticia como números, correndo o risco de transformá-las em meras abstrações através da rotina do exercício.
O sistema de saúde do Iraque, mesmo afetado pela guerra, promove grandes esforços para responder a esse fluxo de pacientes e providenciar as devidas condições sanitárias para tratá-los. Por falta de recursos e das condições necessárias, muitos feridos graves e doentes mutilados foram incapazes de obter os cuidados essenciais para sua recuperação.
Na Jordânia, um projeto gerenciado e fundado por Médicos Sem Fronteiras (MSF) reflete o impacto desse tipo de violência na população iraquiana. Esse programa especializado de cirurgia tratou aproximadamente 800 pacientes feridos, restaurando o rosto de um, a mobilidade de outro e a capacidade de realizar atos simples da vida diária, perdida há muito tempo por muitos outros.
O projeto, aberto três anos atrás, foi desenvolvido gradualmente com a ajuda de um pequeno grupo de médicos no Iraque, que identificam pacientes e organizam a transferência deles para Amã. Enquanto mais de 2 mil arquivos foram revistos até a presente data, nossas equipes puderam tratar apenas metade desses pacientes, tendo como base os cuidados especiais que somos capazes de oferecer (ortopedia, facial-maxilar e plástica).
Esse tratamento cirúrgico é complexo. Ele requer longas permanências no hospital, recursos e um ambiente caro e especializado. Por exemplo, metade dos pacientes tratados em Amã apresenta feridas antigas, frequentemente infectadas, que são resistentes a muitos remédios. Para conseguir operar e evitar a amputação, nossos médicos não têm escolha a não ser usar antibióticos, gerando gastos que podem chegar a até 2.600 euros para um único tratamento
Além da complexidade, do custo dessas operações e da infraestrutura necessária para dar suporte aos pacientes feridos, esse projeto diz muito tanto sobre os que recebem tratamento, quanto sobre os que não recebem.
No Iraque, ninguém sabe quantos pacientes mutilados e deficientes têm esperado por anos com feridas infectadas. Contudo, o projeto de Amã nos leva a refletir sobre os impactos sociais dessa violência, pois quando a deficiência anda de mãos dadas com a incapacidade de retomar o trabalho, a estigmatização social e os encargos financeiros e humanos que as famílias têm de suportar são muito altos.
Atualmente, mais de 200 pacientes foram identificados e ainda continuam esperando para serem tratados no projeto de Amã. Esta é uma grande responsabilidade para uma organização como MSF, mas provavelmente atende apenas uma parte das necessidades de um país como o Iraque, dominado por uma violência que produz uma quantidade de vítimas e tipos de feridas que ultrapassam largamente a capacidade de uma organização médica privada.
Apesar de toda guerra produzir inevitavelmente a sua quota de mortes e tragédias que só o tempo poderá aliviar, uma coisa é certa no Iraque: os iraquianos mais gravemente feridos terão que lutar por um bom tempo para superar as dificuldades de uma existência agora sobrecarregados por um série de deficiências graves.
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