A Médicos Sem Fronteiras (MSF) é uma organização humanitária internacional que leva cuidados de saúde a pessoas afetadas por graves crises humanitárias. Também é missão da MSF chamar a atenção para as dificuldades enfrentadas pelos pacientes atendidos em seus projetos.
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MSF apoia hospitais e equipes móveis visitam comunidades ribeirinhas
Marcela “Kuki” Mendonça é uma enfermeira argentina que apoia nossa resposta à COVID-19 na região amazônica peruana. MSF está tratando de pacientes nos hospitais de Tarapoto, Huánuco e Tingo María e oferecendo apoio a centros de saúde primários na província de Datem del Marañón, por meio de treinamentos e doações. Confira abaixo seu relato sobre nossas atividades, incluindo a complexa logística para os deslocamentos e a precariedade das instalações de saúde na região:
“Nossa equipe chegou em meados de julho a San Lorenzo, cidade do distrito de Barranca, na província de Datem del Marañón, na região amazônica do Peru. A logística foi desafiadora: os seis membros expatriados de nossa equipe levaram duas semanas para chegar ao destino a partir dos respectivos países de origem – de avião, aeronaves de pequeno porte e barcos pelo Rio Amazonas.
Fizemos a viagem depois que MSF recebeu um alerta de que os centros de saúde de San Lorenzo estavam superlotados devido à pandemia de COVID-19.
Em Datem del Marañón não existem hospitais, apenas centros de saúde. Dois deles são avançados, localizados em San Lorenzo e em Andoas: oferecem atendimento ambulatorial abrangente e de curta permanência, mas não cirurgia ou terapia intensiva.
A estrutura dos centros de saúde varia, dependendo do número de profissionais médicos, leitos de observação e outros serviços de que dispõem. A maioria está em um nível muito inferior e estão localizados principalmente na área do rio Morona. As pessoas que vivem nas aldeias do norte devem viajar mais de 12 horas de barco – se conseguirem o barco rápido – para chegar ao primeiro centro de saúde com um médico. O hospital mais próximo fica a 128 km de distância e os pacientes são encaminhados em aeronaves de pequeno porte.
Após quase duas semanas avaliando a situação da COVID-19 na cidade de San Lorenzo, visitamos centros de saúde em diferentes áreas, o que nos permitiu conhecer ainda mais a situação. A maioria das comunidades possui apenas centros de saúde básicos, onde os únicos profissionais de saúde são técnicos de enfermagem ou de obstetrícia. As transferências são complicadas, utilizando barcos chamados “chalupas”, que não estão nas melhores condições. Faltam luzes e alguns não têm teto, além de não serem adaptados para o transporte adequado de pacientes, com a impossibilidade de colocar macas e aparelhos de oxigênio com segurança.
Os motores são pequenos, o que significa que o tempo de viagem até os centros de saúde é longo. Além dessas complicações, as pessoas geralmente preferem não ser encaminhadas por medo de não poderem voltar para casa. Quanto mais avançávamos no rio, mais as necessidades aumentavam e as comunidades relatavam se sentir abandonadas. Alguns até expressaram seu descontentamento com as “falsas promessas” de diferentes atores, organizações ou grupos que vieram aos seus centros prometendo coisas e depois não as cumpriram.
Em todo o mundo as pessoas estão criando diferentes crenças ou “mitos” sobre como a COVID-19 é transmitida, prevenida e curada e as comunidades nativas da Amazônia não são exceção. Os pacientes foram cuidados com métodos tradicionais de tratamento de resfriados e gripes. O difícil era acreditar que o frio mata. Isso fez com que muitas pessoas se recusassem a ir aos centros de saúde ou a fazer oxigenoterapia, o tratamento primário para pacientes com COVID-19 grave. Ao mesmo tempo, muitos funcionários dos centros de saúde relataram não ter conhecimento profundo sobre o novo coronavírus, além de afirmar que poderiam melhorar as medidas de prevenção e controle de infecções.
Em algumas comunidades ocorreram mais casos do que em outras, mas em geral aconteceram poucas mortes, talvez por causa da população majoritariamente jovem ou da boa saúde geral, o que significa que há menos doenças que colocam as pessoas em risco, como hipertensão e diabetes. Algo que muito nos repetiram foi que “grande parte da população já tinha COVID-19”. Chegaram a nos dizer que acreditam que 80% da população já tenha sido infectada, o que seria um tanto anômalo, já que em países como a Itália e os Estados Unidos a taxa de infecção da população é inferior a 20%. Acreditamos que isso seja possível porque o coronavírus chegou justamente no momento do pico das doenças respiratórias, o que levou a serem confundidas com COVID-19.
Vendo todas essas variáveis e com nossos recursos limitados, decidimos quais centros de saúde poderíamos apoiar, selecionando-os estrategicamente por geografia e quantidade de população coberta, não importando o nível de saúde em que estivessem, e tentando abranger o maior número possível de grupos étnicos. Selecionamos 12 centros de saúde e realizamos treinamentos de dois dias nos quais informações sobre o vírus, a doença, o tratamento e a prevenção eram compartilhadas com a equipe. Também fornecemos recomendações sobre controle de infecção, gestão de resíduos e promoção da saúde. Para complementar os treinamentos, foram realizadas doações de materiais. O objetivo era prevenir uma segunda onda e passar recomendações gerais sobre como prevenir futuras infecções ou complicações com qualquer outra doença infecciosa. Para ter acesso a certas comunidades, tínhamos que falar com as autoridades e tomar os cuidados necessários.
Carregamos dois barcos com materiais e subimos o rio por algumas longas horas. Nas aldeias mais remotas tivemos a oportunidade de dormir nas casas da comunidade em nossas redes com mosquiteiros. Algumas comunidades não têm água ou eletricidade e dependem da água da chuva ou do rio. No final da visita final, um dos representantes da comunidade nos agradeceu e comentou: “A política arruína a saúde, mas vocês não são políticos”.
A região amazônica peruana foi duramente atingida pela COVID -19 e seus problemas estruturais agravaram a situação. A comunidade é forte, mas precisa de ajuda e apoio, para a COVID-19 e outros problemas. Acima de tudo, eles precisam que os escutemos e respondamos às necessidades que consideram prioritárias.”
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