Pessoas deslocadas em Goma precisam de regresso seguro e voluntário e de assistência urgente

As pessoas estão a partir com o pouco que têm, sem se saber em que condições farão o caminho de regresso a casa ou o que lá vão encontrar

Pessoas deslocadas na República Democrática do Congo
© Daniel Buuma

Centenas de milhares de pessoas deslocadas que se abrigaram em campos na cidade e arredores de Goma, na província de Kivu Norte, na República Democrática do Congo, sofreram os graves impactos da violência extrema ocorrida nas últimas três semanas – muitas começaram agora a deixar os campos, e as partidas têm vindo a acelerar, foi testemunhado pelas equipas da Médicos Sem Fronteiras (MSF).

A organização médica-humanitária insta a que estas deslocações da população sejam voluntárias e também que seja prestada assistência humanitária urgente às pessoas onde mais é precisa.

Desde que os combates abrandaram em Goma, e com o M23/AFC (Aliança Rio Congo) agora com o controlo de partes da região, foram observadas muitas movimentações nos campos para pessoas deslocadas e nas estradas. Alguns campos estão a esvaziar-se rapidamente, com largos números de pessoas a movimentarem-se rumo a áreas vizinhas, incluindo na direção dos locais de onde tinham chegado.

 

Campos deslocados República Democrática do Congo
As pessoas deixam os campos com os pertences nas costas e na cabeça, alguns a pe, outros de mota, dependendo dos meios. Fevereiro 2025. © Jospin Mwisha

 

As equipas da MSF observaram também pessoas deslocadas a rumarem para a cidade de Goma, enquanto outras, vindas de campos que foram destruídos, se dirigem para os campos que restam a oeste de Goma.

“Esta semana, alguns campos foram amplamente esvaziados em apenas algumas horas”, descreve o responsável dos programas de emergência da MSF em Goma, Thierry Allafort-Duverger. “As pessoas estão a partir com o pouco que têm. Não sabemos em que condições farão o caminho de regresso a casa ou o que lá vão encontrar. Mas é crucial que estas movimentações sejam voluntárias e que as condições de receção nas zonas a que regressam sejam seguras”, sustenta.

As pessoas deslocadas parecem estar a partir dos campos por várias razões. Muitos dos residentes nos campos mencionam ordens de evacuação que terão sido reportadamente dadas por membros do M23, enquanto outros recebem mensagens oficiais a dizer-lhes o contrário. Outras pessoas expressam o desejo de partir ao fim de anos a sobreviver em condições desesperadas. E algumas, porém, estão a escolher ficar nos campos, sentindo incerteza sobre as condições de segurança e o que podem encontrar em casa.

“As mensagens continuam confusas e pouco claras, mas o que é certo é que a população está muito preocupada, oscilando entre rumores e a realidade”, explica Thierry Allafort-Duverger. “As famílias encontram-se numa situação de extrema vulnerabilidade. A assistência humanitária é mais do que necessária, tanto para quem parte como para quem fica. Infelizmente, estamos a testemunhar que algumas ONG não têm conseguido voltar a iniciar as atividades que desenvolviam ou suspenderam os serviços que prestavam, e estão a desmontar as estruturas que tinham nos campos.”

 

Pessoas deslocadas na República Democrática do Congo
À saída dos campos de Bushagala e Bulengo. © Jospin Mwisha

 

A situação de vulnerabilidade da população e a necessidade que têm de assistência são ilustradas pelo facto de que, nos dias recentes, equipas da MSF viram algumas pessoas a desmontar estruturas humanitárias e a levarem com elas tudo o que lhes poderá ser potencialmente útil: cadeiras, chapas metálicas, lonas, cordas. Outras pessoas tentaram proteger as estruturas da MSF de pilhagens.

“Isto aconteceu em diversos locais onde a MSF estava a trabalhar, como em Lushagala, onde uma clínica e um centro de tratamento de cólera da MSF desapareceram em apenas algumas horas na segunda-feira [10 de fevereiro]”, conta ainda o responsável dos programas de emergência da MSF em Goma.

Em relação às pessoas deslocadas que estão a partir dos campos, a MSF está especialmente apreensiva sobre o nível de acesso a serviços de saúde que terão quando regressarem aos locais de origem. Após vários anos de guerra, muitas estruturas de saúde foram pilhadas ou abandonadas e já não podem providenciar cuidados médicos adequados a quem deles precisa, seja agora ou a longo prazo.

Nos últimos três anos, as condições de vida nos campos para pessoas deslocadas em redor de Goma têm sido desesperadas, até mesmo chocantes. Mas a situação nos locais para os quais as pessoas estão a regressar será muito provavelmente igualmente desastrosa, se as ONG, as agências das Nações Unidas e as autoridades não prestarem o nível mínimo de serviços essenciais.

A MSF insta a que as organizações humanitárias tenham a garantia de acederem a todos os locais para onde as pessoas estão a voltar, e que quem regressa possa ter acesso a serviços de saúde essenciais, incluindo o apoio para sobreviventes de violência sexual. Fracassar na prestação destes serviços comporta o risco de agravar as necessidades de saúde das pessoas.

 

 

Para garantir um nível mínimo de cuidados de saúde às pessoas deslocadas nas zonas a que regressam, a MSF ativou clínicas móveis em estradas que saem de Goma para leste e para norte. Equipas da organização médica-humanitária estão também a levar a cabo avaliações de necessidades nas áreas às quais as pessoas estão a voltar.

Mesmo com a rápida evolução da situação em Goma e arredores, equipas da MSF mantêm a prestação de assistência vital às pessoas que continuam a partir dos campos. Aqui se incluem cuidados médicos, tratamento de desnutrição, tratamento de cólera e cuidados para sobreviventes de violência sexual.

A MSF está também a fazer distruições de água potável e de alimentos, e a reforçar o saneamento nos campos de pessoas deslocadas. Simultaneamente, equipas médicas da MSF nos hospitais de Kyeshero e de Virunga, em Goma, prestam cuidados a pessoas feridas na violência.

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