Relatório sobre o leste da RDC: Nova onda de violência em Ituri coloca civis em risco

Em novo relatório, a MSF destaca as necessidades extremas de muitas comunidades em perigo devido aos ataques recentes no leste da RDC

MSF em Ituri, República Democrática do Congo
© MSF

A Médicos Sem Fronteiras (MSF) tem testemunhado o aumento das atrocidades na província de Ituri, no leste da República Democrática do Congo (RDC), onde as equipas médicas prestam cuidados a civis com ferimentos terríveis. Num novo relatório divulgado, Arriscam a Vida para Sobreviver, a MSF destaca as necessidades extremas de muitas comunidades em perigo devido aos ataques recentes, ao aumento das deslocações populacionais e à redução da ajuda humanitária.

Há décadas, as pessoas em Ituri – no nordeste da RDC – têm sido tanto alvos diretos como danos colaterais num conflito complexo, caracterizado pela violência, pelas divisões étnicas e pela participação de vários grupos armados. Este conflito também tem dificultado gravemente o acesso aos cuidados de saúde e aos meios de subsistência das famílias, enquanto a restrição da ajuda humanitária tem causado mais sofrimento a uma população que já recebe pouca atenção internacional.

A MSF apela a todos os grupos armados em Ituri, estatais e não estatais, para que poupem os civis e as infraestruturas de saúde, que são essenciais para a sobrevivência das comunidades locais.

Aumento da violência e deslocação populacional

campo refugiados república democrática do congo
Vista aérea do campo de pessoas refugiadas Gengere 1 e do rio Kakoy. © Fanny Hostettler/MSF, janeiro 2025

A violência em Ituri já deslocou cerca de 100 000 pessoas desde o início do ano, segundo a ONU. Entre janeiro e fevereiro, também foi registado um aumento da violência contra civis, com ataques que resultaram em mais de 200 falecimentos e dezenas de pessoas feridas. Em fevereiro, as equipas médicas da MSF trataram crianças de 4 anos e gestantes com ferimentos de machete e bala após ataques de milícias no território de Djugu.

“Estes ataques mais recentes seguem-se a décadas de violência e às suas consequências devastadoras para os civis, incluindo mulheres e crianças em Ituri”, afirma a coordenadora-geral do projeto da MSF na RDC, Alira Halidou. “A crise aqui é marcada por deslocações repetidas, em que a violência força os civis a recomeçar as suas vidas vezes sem conta. O pior é que as histórias que os pacientes e as comunidades nos contam representam apenas a ponta do icebergue.”

 

Acesso dificultado aos cuidados de saúde

Apenas uma pequena parte da população consegue aceder aos cuidados de saúde em Ituri, onde as unidades de saúde também são alvo de ataques. No território de Djugu, o hospital geral de Fataki foi obrigado a suspender as atividades e a retirar os pacientes em meados de março, após ameaças de grupos armados. Este encerramento afeta milhares de pessoas, que ficam sem acesso a cuidados médicos. Na zona de saúde de Drodro, também em Djugu, cerca de 50 por cento dos centros de saúde foram parcialmente ou totalmente destruídos e tiveram de ser deslocados.

Quando a violência aumentou por esta altura no ano passado, um paciente foi morto na própria maca durante um ataque armado ao hospital geral de Drodro. Estes ataques não só fazem com que os pacientes tenham medo de procurar assistência médica, como também colocam os profissionais de saúde em risco.

Um profissional de saúde entrevistado para o relatório contou que, apesar de um centro de saúde ter sido forçado a encerrar durante dois meses, continuou, ainda assim, a arriscar a vida para realizar cesarianas.

“Era perigoso e eu estava a arriscar a minha vida, mas não tínhamos escolha. Tínhamos de nos esgueirar para lá com as mulheres, caso contrário, elas teriam morrido.”

 

Pessoas em maior vulnerabilidade como alvo

Mais de metade das 39 vítimas de violência tratadas pela MSF na clínica Salama, em Bunia, até meados de março de 2025, eram mulheres e crianças. Uma mãe, cujo filho de 4 anos ficou ferido, perdeu o bebé de 6 meses e o marido num ataque perpetrado com machetes. Duas irmãs, de 4 e 16 anos, sofreram golpes de facão na cabeça e nos braços, e a mãe delas (grávida de 8 meses) também ficou gravemente ferida com múltiplos cortes. Um menino de 9 anos teve um ferimento de bala no abdómen tratado, e ele relata ter visto os agressores a atacarem e matarem a mãe e os dois irmãos com facões.

Mesmo quando os civis procuram refúgio nos campos de deslocados, continuam a não estar seguros. Numa ocasião, em setembro de 2024, a MSF tratou cinco civis com ferimentos de bala após um ataque ao campo de Plaine Savo, na zona de saúde de Fataki.

Sempre que há um aumento dos ataques contra civis, o número de vítimas de violência sexual que recorrem às unidades da MSF também cresce. As mulheres, em particular, são atacadas enquanto tentam encontrar meios para alimentar as suas famílias. Em Drodro, em 2023 e 2024, cerca de 84 por cento das vítimas de violência sexual tratadas pela MSF foram atacadas enquanto trabalhavam nos campos, enquanto recolhiam lenha ou se deslocavam na estrada.

 

Agravamento das necessidades não atendidas

Apesar dos esforços do Ministério da Saúde local, da MSF e de outras organizações humanitárias, as necessidades da população ultrapassam em muito os recursos disponíveis. A insegurança alimentar agravou-se drasticamente em Ituri em 2024 e já é crónica para 43 por cento da população. As más condições de higiene e os abrigos degradados nos campos de deslocados facilitam a propagação de doenças diarreicas e respiratórias, que afetam sobretudo crianças com menos de 5 anos.

As pessoas em Ituri devem ter garantido o acesso seguro aos cuidados de saúde e não podem continuar a arriscar as próprias vidas em busca de comida e outras necessidades básicas.

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