Um membro da equipa de MSF examina a lesão de Saad Hussein, que tem de viver com um fixador externo depois de ter ficado ferido em 2025 durante uma distribuição de alimentos organizada pela GHF.

Sobreviventes ainda sofrem impactos da violência na distribuição de alimentos em Gaza

No contexto dos planos em evolução para a Faixa de Gaza, a MSF lembra a Israel e aos EUA que a militarização da assistência humanitária nunca deve ser replicada

Há um ano, a chamada Fundação Humanitária de Gaza (GHF, na sigla em inglês) começou a operar pontos militarizados de distribuição de alimentos por toda a Faixa de Gaza, substituindo o sistema de distribuição de ajuda coordenado pela ONU. A chamada GHF, gerida por Israel com apoio financeiro dos Estados Unidos e de outros aliados, encerrou ao fim de seis meses, depois de a violência associada ter matado e ferido milhares de pessoas1.

A Médicos Sem Fronteiras (MSF) continua a tratar dezenas de pacientes afetados por esta violência, que vivem com trauma e até com lesões permanentes. No contexto dos planos em evolução para a Faixa de Gaza, a MSF lembra a Israel e aos EUA que a militarização da assistência humanitária acarreta o risco de causar violência e danos graves e nunca deve ser replicada.

 

Um membro da equipa de MSF examina a lesão de Saad Hussein, que tem de viver com um fixador externo depois de ter ficado ferido em 2025 durante uma distribuição de alimentos organizada pela GHF.
Saad Hussein tem de viver com um fixador externo na perna depois de ter ficado ferido durante uma distribuição de alimentos organizada pela GHF. © Nour Alsaqqa/MSF

 

“Como a MSF documentou2, com provas médicas, as pessoas que procuravam alimentos em condições desesperadas e semelhantes a um cerco sofreram níveis horrendos de violência dirigida e indiscriminada”, denuncia o coordenador-geral da MSF para os Territórios Palestinianos Ocupados, Joan Tubau.

“Crianças foram baleadas no peito enquanto tentavam alcançar comida, pessoas foram esmagadas ou asfixiadas em debandadas e multidões inteiras foram abatidas a tiro nos pontos de distribuição. Hoje, muitos pacientes relacionados com a GHF dependem inteiramente de doações e das cozinhas comunitárias devido aos problemas de mobilidade e à incapacidade de trabalhar e de sustentar as famílias.”

 

Meses de bloqueio total

A chamada GHF foi criada para entregar assistência alimentar às pessoas em Gaza, após meses de bloqueio total imposto por Israel, substituindo cerca de 400 locais de ajuda existentes. Os quatro locais da chamada GHF entraram em funcionamento em finais de maio 2025 e eram “assegurados” por contratados armados privados norte-americanos, mantendo as forças israelitas o controlo do perímetro mais alargado.

Entre junho e outubro 2025, as equipas da MSF registaram pelo menos 32 mortes e trataram 1885 pacientes por ferimentos nos centros de cuidados primários de saúde da MSF de Al-Attar e Al-Mawasi, em Khan Younis.

 

O meu amigo foi executado à minha frente. Isso ainda me atormenta.

Karim – paciente da MSF

 

Karim, que era barbeiro, sofreu ferimentos que lhe mudaram a vida, danificando permanentemente um nervo da perna. “Fomos os dois apanhados e algemados (por soldados israelitas) com as mãos atrás das costas. Foi chamado um drone por cima de mim e pediram a quatro homens que me levassem dali.”

 

Outro paciente, Muhammad, foi atingido por nove tiros. Espera voltar a andar, mas sofre de dores crónicas e precisa de fisioterapia. “Nunca havia comida suficiente para todos. Houve muito esmagamento porque os portões de ferro estreitos não eram suficientemente largos. Vi muitos mortos, incluindo mulheres. Uma foi baleada no peito e outra nas costas. Disparavam de muitos pontos diferentes. O soldado israelita que disparava contra mim estava posicionado numa colina”, relata.

 

Enquanto estava no chão, acenei: ‘por favor parem, já chega’. Mas ele disparou contra as minhas mãos só por diversão.

Muhammad – paciente da MSF

 

Mustafa, taxista de Rafah, desenvolveu uma infeção no calcanhar que levou à necrose, depois de um ferimento de bala lhe ter partido dois ossos: “A GHF era tão humilhante; milhares de pessoas corriam em direção a ela e depois as forças israelitas disparavam sobre nós a partir de pontos fixos. Dois terços dos feridos que conheço em Gaza foram atingidos na GHF”, conta Mustafa, cujo sobrinho de 17 anos foi baleado na cabeça e morto por um franco-atirador.

Estes testemunhos são reflexo de muitos que foram forçados a viver com fixadores externos ou que ainda necessitam de acompanhamento médico próximo e constante.

 

Medo extremo e escassez

“Apesar da existência temporária, este esquema de ajuda devastador trouxe consequências sociais mais amplas, ao forçar as pessoas a viverem em medo extremo, escassez e competição, levando a trauma e a mudanças nas dinâmicas comunitárias”, explica o coordenador de emergências da MSF para Gaza, Nicholas Papachrysostomou.

A chamada GHF também desempenhou um papel central na crise de desnutrição fabricada por Israel. A redução drástica dos pontos de distribuição de alimentos e de ajuda, agravada pelo cerco total, pela intensificação da violência, pelas deslocações populacionais em larga escala e pela destruição de instalações de saúde, teve um papel direto na fome declarada em meados de 20253, com consequências devastadoras para grupos em situação de vulnerabilidade como grávidas, recém-nascidos e crianças.

 

Neama Awad ficou ferida em 2025 durante uma distribuição organizada pela GHF. “Fui à procura de pão. Queria levar comida para os meus filhos.”
Neama Awad ficou ferida em 2025 durante uma distribuição organizada pela GHF. “Fui à procura de pão. Queria levar comida para os meus filhos.” © Nour Alsaqqa/MSF

 

“Nada na GHF foi uma solução humanitária. Um ano depois, a dimensão dos danos infligidos às pessoas nos pontos de distribuição da GHF, sem qualquer responsabilização, exige uma investigação independente. A decisão do Tribunal Internacional de Justiça de 22 de outubro 2025 reforça a obrigação de Israel de garantir acesso humanitário sem entraves e reprova os modelos de ajuda, incluindo a GHF, que não aliviam o sofrimento”, sustenta Joan Tubau.

A MSF insta Israel, os EUA e todas as partes com influência a garantirem que a ajuda não seja militarizada, mas sim acessível e baseada na independência, imparcialidade, neutralidade e humanidade. A assistência humanitária tem de poder chegar a todas as pessoas civis em segurança, com base na vulnerabilidade e na necessidade, onde quer que escolham residir, e em grande escala.

 

*Os nomes das pessoas foram alterados para proteger a identidade.

 

Notas:

1 – Não existe um registo oficial cumulativo do número total de vítimas associadas à GHF. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (OHCHR, na sigla em inglês) indicou que causou mais de 2140 mortes (setembro 2025) e mais de 4000 feridos (agosto 2025), mas estima-se que estes números sejam, em larga medida, uma subcontagem. As vítimas incluem também as causadas nas rotas de abastecimento, quando pessoas desesperadas tentavam aceder a alimentos.

2 – Relatório da MSF (agosto 2025): This is not aid. This is orchestrated killing

3 – “Quadro Integrado de Classificação da Segurança

Alimentar (IPC): https://www.ipcinfo.org/ipcinfo-website/countries-in-focus-archive/issue-134/en/

 

 

 

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