Veículos da MSF destruídos após o hospital em Lankien, no Sudão do Sul, ser atingido por um ataque aéreo das forças do governo do Sudão do Sul durante a noite de terça-feira, 3 de fevereiro de 2026.

Sudão do Sul: MSF é forçada a fechar hospital de Lankien após ataques

Bombardeado, saqueado e vandalizado. O fecho do hospital de Lankien põe fim a 31 anos de apoio médico contínuo

  • A violência deliberada contra os cuidados de saúde no Sudão do Sul atingiu um patamar crítico, comprometendo a segurança de quem cuida e de quem necessita de tratamento.
  • A destruição total do hospital de Lankien, uma das instalações de saúde mais importantes da região, deixa um vazio profundo numa rede de assistência já fragilizada pelo conflito.
  • Num cenário onde os hospitais deveriam ser locais de refúgio, o fim de décadas de apoio médico é o rosto mais visível do impacto devastador da guerra na vida das comunidades.

 

Fim a 31 anos de apoio médico

A Médicos Sem Fronteiras (MSF) foi forçada a fechar permanentemente o hospital em Lankien, no estado de Jonglei, no Sudão do Sul, após este ter sido bombardeado a 3 de fevereiro. O fecho do hospital põe fim a 31 anos de apoio médico contínuo a uma comunidade que já tem um acesso extremamente limitado a cuidados de saúde.

A MSF apela a todas as partes em conflito para que evitem ataques a instalações e profissionais de saúde, e solicita uma investigação independente e imparcial ao ataque.

 

O hospital da MSF em Lankien foi bombardeado, saqueado e, posteriormente, vandalizado.
O hospital da MSF em Lankien foi bombardeado, saqueado e, posteriormente, vandalizado. © Stefan Pejovic/MSF

 

Fomos forçados a interromper todas as atividades médicas a 3 de fevereiro, depois de uma bomba ter sido lançada de um avião sobre o armazém no interior do recinto hospitalar. O bombardeamento destruiu provisões médicas e outras provisões críticas. Embora não nos seja possível confirmar qual a parte responsável no conflito em curso no Sudão do Sul, tanto quanto sabemos, parece que as forças governamentais são a única parte com capacidade para bombardeamentos aéreos.

Nos dias que se seguiram ao ataque aéreo, era do conhecimento público que as forças governamentais controlavam a área de Lankien. O hospital de Lankien foi saqueado, partes do edifício foram incendiadas e as restantes estruturas foram vandalizadas, deixando nada mais do que devastação. A MSF ainda não consegue confirmar qual a parte no conflito responsável pelo saque e pela vandalização.

 

Estamos indignados com o que testemunhámos recentemente no hospital

Gul Badshah – responsável de operações da MSF

 

“O nível de destruição ultrapassa tudo o que poderíamos imaginar. Vimos buracos de bala nos para-brisas dos nossos veículos e os nossos edifícios de provisões médicas totalmente queimados, enquanto até o equipamento pediátrico foi alvo de ataques e destruído”, descreve o responsável de operações da MSF, Gul Badshah.

Horas antes do ataque de 3 de fevereiro, o hospital de Lankien foi evacuado e os pacientes receberam alta, na sequência do aumento das tensões na zona. Segundo os relatos, as pessoas fugiram de Lankien após o bombardeamento do hospital e do mercado da vila nesse dia.

 

Ataques a instalações médicas

A destruição do nosso hospital em Lankien não é um incidente isolado, mas parte de uma tendência mais vasta e profundamente preocupante de violência contra os cuidados de saúde no Sudão do Sul.

Desde o início de 2025, as instalações e as equipas da MSF foram afetadas por, pelo menos, 12 ataques e eventos violentos. Estes incidentes repetidos forçaram o fecho de quatro hospitais – Ulang, Old Fangak, Akobo e agora Lankien – e deixaram centenas de milhares de pessoas sem acesso a cuidados médicos. Como habitualmente, são as pessoas que estão a pagar um preço elevado pelos ataques aos cuidados de saúde.

 

O hospital em Lankien foi atingido por um ataque aéreo na noite de terça-feira, 3 de fevereiro de 2026.
O hospital em Lankien foi atingido por um ataque aéreo na noite de terça-feira, 3 de fevereiro de 2026. © Stefan Pejovic/MSF

 

“Os ataques a instalações médicas, profissionais de saúde e pessoas são inaceitáveis e têm de parar”, defende Gul Badshah. “As forças governamentais e da oposição, bem como todos os outros grupos armados, devem assumir total responsabilidade pelas suas ações. Devem também evitar ataques a profissionais e instalações de saúde, bem como a pessoas, e respeitar o Direito Internacional Humanitário e os seus princípios, incluindo a distinção e a proporcionalidade”, acrescenta.

A MSF apela às autoridades sul-sudanesas para que forneçam explicações transparentes, garantam a responsabilização e tomem medidas concretas para proteger os cuidados de saúde e as operações humanitárias.

 

A MSF trabalhava em Lankien desde 1995, inicialmente dando resposta à leishmaniose visceral (ou kala-azar), uma doença tropical negligenciada. Ao longo dos anos, as nossas atividades foram expandidas gradualmente e o hospital tornou-se a única instalação de cuidados de saúde de nível avançado na região. Antes da sua destruição, cerca de 250 mil pessoas dependiam do hospital para receber cuidados vitais. Com o fecho definitivo, as comunidades da região ficam agora sem serviços médicos e expostas a mortes evitáveis.

 

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