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Medo da violência dificulta acesso da população a cuidados médicos; crianças chegam com doenças em estágio avançado
Os intensos confrontos no centro e norte da província de Helmand entre as forças afegãs e de oposição tem provocado um aumento no número de feridos de guerra no hospital Boost, apoiado por Médicos Sem Fronteiras (MSF), em Lashkar Gah. Durante a fase mais crítica, de 21 de junho a 5 de julho, equipes de saúde de MSF trataram 68 pacientes relacionados aos confrontos.
A maior parte dos traumas de guerra foi tratada na emergência do hospital da organização em Lashkar Gah, que ficou sobrecarregado a partir de 22 de junho com o aumento dos combates. Pela primeira vez em cinco anos, os pacientes feridos tiveram que ser encaminhados para o hospital Boost. Com a intensificação dos confrontos, MSF apoiou o hospital Boost para receber pacientes mais complexos e gravemente feridos, principalmente vítimas de explosões com traumas difusos.
Durante o pico dos confrontos, cirurgiões de MSF estavam fazendo até cinco cirurgias por dia e admitindo de seis a dez pacientes feridos na sala de emergência. No total, a equipe de MSF tratou 68 pacientes feridos como consequência direta do conflito. “A maioria dos nossos pacientes foi ferida por tiros e fortes explosões”, diz Marcus Bachmann, coordenador do projeto de MSF no hospital Boost. “Temos visto lesões do tecido também, inclusive admitimos grávidas com ferimentos provocados por estilhaços.”
Além disso, a utilização de artefatos explosivos improvisados e o fogo-cruzado na estrada para Lashkar Gah dificultam ainda mais a chegada dos feridos ao hospital. “Meu irmão foi ferido por estilhaços e estávamos a caminho do hospital quando começou o conflito,” disse Abid. “Já era noite. Não podíamos voltar nem seguir em frente. Ficamos presos entre as linhas de frente a noite toda. Nós desligamos as luzes do carro e esperamos. Por sorte meu irmão sobreviveu e, quando o conflito parou, ao amanhecer, conseguimos chegar ao hospital.”
Os confrontos também dificultam muito o acesso ao tratamento geral de saúde para toda a população. “Minha neta estava doente. Com o conflito, não conseguimos encontrar um motorista disposto a assumir o risco de nos transportar até o Hospital de Boost: tínhamos que pagar a mais. Então vendemos uma ovelha e pegamos dinheiro emprestado que nos serviu por dois dias. Mas minha neta ficou ainda mais doente e parou de se alimentar. Eu queria que tivéssemos conseguido chegar ao hospital mais cedo,” conta a avó de Hawa. “Por causa do perigo, as famílias muitas vezes demoram a levar parentes doentes para o hospital até que suas vidas estejam em grande perigo,” diz Bachmann. “As crianças chegam a Boost em um estado muito avançado de suas doenças, com desnutrição severa, septicemia ou choque séptico
Enquanto os confrontos diminuíam de intensidade desde 5 de julho, e as estradas estavam transitáveis novamente, os altos índices de violência continuam a cobrar o preço dos moradores da província de Helmand, que tem que lidar todos os dias com minas terrestres, bombas e o riso de estar sob fogo-cruzado. Uma recente pesquisa feita por MSF com pacientes de Boost mostrou que a cada cinco pessoas observadas, quatro enfrentaram obstáculos para chegar ao hospital em decorrência do conflito. Uma em cada três pessoas que morreram antes de chegar ao hospital foram vítimas dos confrontos.
Desde 2009, MSF está apoiando atividades no hospital de Boost em Lashkar Gah, capital da província de Helmand. Equipes de MSF trabalham em diversos departamentos, incluindo maternidade, pediatria, medicina interna, cirurgias, tratamento intensivo e emergência. Em 2013, um total de 66 mil pacientes foram tratados na ala de emergência e foram realizadas 5.600 cirurgias. Alinhadas aos princípios de neutralidade e imparcialidade, os atendimentos são baseadas apenas em critérios médicos. MSF conta apenas com financiamento privado no Afeganistão e não aceita dinheiro de nenhum governo para seu trabalho.
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