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Em entrevista, epidemiologista de MSF reforça a importância do monitoramento da epidemia de Ebola
O número de pacientes de Ebola pode estar diminuindo, mas a epidemiologista Amanda Tiffany, que trabalha para o Epicentre, braço de pesquisa da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF), explica por até a última pessoa que esteve em contato com um paciente infectado precisa ser rastreada para ajudar a dar um fim à epidemia.
“A epidemia de Ebola teve início com apenas alguns casos em Guéckédou, na Giné. Em uma área pequena e isolada, os surtos do vírus são normalmente muito limitados. Mas, embora tenha começado pequeno, esse surto ocorreu no cruzamento entre três países, onde as pessoas se deslocam com frequência, de um vilarejo a outro e de um país a outro. No início, na Guiné, quando perguntávamos sobre os contatos das pessoas que tinham morrido de Ebola, as pessoas diziam, ‘oh, ele foi para Serra Leoa’, ou ‘ele está na Libéria.’
Aqui em Freetown, ainda não sabemos como mais da metade de nossos pacientes de Ebola foram infectados. E, embora saibamos quais famílias tiveram casos de Ebola, não sabemos necessariamente onde a infecção foi originada.
Para chegar a zero casos, toda pessoa que teve um contato de alto risco com alguém infectado pelo vírus precisa ser identificada. Não é tão fácil como ir a uma casa onde alguém está doente e perguntar quem foi exposto. Trata-se de ganhar a confiança das famílias e passar um tempo com elas para que entendam que as pessoas com quem estiveram em contato não serão punidas.
Se um bom sistema de rastreamento das pessoas que estiveram em contato com os pacientes infectados tivesse sido implementado desde o início do surto, não haveria razões para submeter pessoas à quarentena. Na Guiné, o governo nunca colocou famílias em quarentena. Na cidade superlotada de Freetown, em Serra Leoa, onde a disseminação do Ebola fugiu do controle e a resposta contou com poucos recursos, talvez a quarentena tenha sido avaliada pelo governo como única opção possível.
Pessoalmente, eu não concordo com isso, mas consigo entender por que o governo de Serra Leoa tomou essa decisão – para impedir que as pessoas fiquem se movimentando e espalhando a doença ainda mais. A mobilidade da população é uma das principais razões de a epidemia ter se espalhado tão rapidamente. No entanto, a partir do que observamos durante as visitas a algumas famílias sob quarentena, elas não estão recebendo apoio adequado sistematicamente – incluindo alimentos, água potável e cuidados médicos.
Ontem, visitei uma família em quarentena. Nós já tínhamos admitimos cinco membros da família em nosso centro de tratamento de Ebola em Freetown quando uma menina de quatro anos de idade ficou doente. Eles ligaram para o número de telefone gratuito nacional de atendimento ao Ebola e uma ambulância foi buscar a criança. Embora a família tenha pedido para ela ser levada ao centro de MSF, onde a menina já tinha família, foi dito à equipe de socorro que a levasse para outro centro. Até ontem, a família não tinha notícias da criança, e eles estavam muito preocupados. Eles também estavam preocupados com o que isso significaria para eles, e me disseram: ‘Se a menina for confirmada com Ebola, vamos ter de iniciar outros 21 dias de quarentena. Se a mãe dela ficar doente dez dias depois, vão começar os 21 dias todos de novo. Será difícil para nós continuarmos aceitando.’
As casas em Freetown são tão próximas umas das outras, especialmente nas áreas densamente povoadas da ‘favela’, que fica fácil o suficiente desaparecer. É muito simples fugir da quarentena.
Porém, em alguns bairros, há muita pressão por parte da comunidade sobre as pessoas que estão em quarentena, já que todos sabem quem são. Algumas vezes, as pessoas decidem colocar a si mesmas sob quarentena.
É claro que é uma boa notícia que Libéria, Guiné e Serra Leoa estejam tendo poucos casos novos de Ebola. O comportamento das pessoas mudou. Elas estão realmente cansadas e querem que a doença suma de suas comunidades. Há também muitas organizações administrando centros de tratamento de Ebola, fazendo controle de infecções, conduzindo atividades de sensibilização e operando serviços de ambulância.
Mas o motivo de a epidemia ainda estar em curso é que nós – a comunidade internacional – não agimos rápido o suficiente. Se ocorrer outro surto, o que deve ser feito de maneira diferente é aumentar a velocidade da resposta. Mas dessa vez, ele não vai pegar esses países de surpresa. As pessoas têm sido treinadas, centros foram construídos, os sistemas de ambulância foram reforçados e as práticas de triagem estão sendo melhoradas. Espero que, por causa das lições aprendidas com a situação atual, a próxima epidemia de Ebola nunca tenha a chance de fugir tanto do controle.”
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