A Médicos Sem Fronteiras (MSF) é uma organização humanitária internacional que leva cuidados de saúde a pessoas afetadas por graves crises humanitárias. Também é missão da MSF chamar a atenção para as dificuldades enfrentadas pelos pacientes atendidos em seus projetos.
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Thierry Goffeau conta que o maior desafio para as equipes de MSF tem sido a logística para chegar até determinadas localidades
Thierry Goffeau é o coordenador geral de MSF no Kivu do Norte. Ele está, atualmente, em Rutshuru, onde o pânico e o medo estão começando a diminuir. Como está a situação onde você está?No momento, estou em Rutshuru, fortaleza do M23, o olho do furacão. Atualmente, a situação está tranquila. Em Goma, a situação está se acalmando desde o término dos confrontos e já não se ouvem mais tiros. Ontem, cerca de cem pessoas ficaram feridas, tanto civis quanto militares; os ferimentos são consequência de tiros e estilhaços de bombas. O número exato de mortos ainda é desconhecido; há corpos pelas ruas.
As pessoas seguem com medo e as lojas permanecem fechadas; não há energia elétrica nem água. Há, também, uma clara demanda por suporte cirúrgico. Muitas das pessoas que fugiram de suas casas em julho, durante a tomada de Rutshuru pelo M23, e que haviam se instalado na periferia da cidade, em Kanyaruchinya, seguiram para Goma ou para o lado oeste de Sake. Dizem que mais de 55 mil pessoas estão em movimento.
O que você vê nas ruas, acampamentos e hospitais?O campo de Kanyaruchinya está vazio. Desde o final dos conflitos, algumas pessoas voltaram para Rutshuru, seu local de origem. É importante ressaltar que essas pessoas não têm absolutamente nenhum bem; antes dessa recente onda de violência, o acampamento não estava sendo administrado adequadamente e as pessoas já se encontravam em um estado de extrema pobreza.
Imagino que muito em breve o comércio vai voltar a abrir as portas e a cidade vai retomar sua vida normal. Mas estamos falando de um verdadeiro trauma, e vai levar um tempo até que sentimentos de confiança e a atmosfera geral sejam restabelecidos, tanto mais à medida que as pessoas estão agora falando em contra-atacar.
O que MSF está fazendo para responder a esta emergência?Estamos disponibilizando uma equipe de suporte em Goma e estamos também atuando com a população deslocada. Hoje, podemos trabalhar quase que normalmente, mas, obviamente, nossas equipes estão estressadas e preocupadas. O que está se passando é, literalmente, uma mudança de regime: como a cidade vai funcionar amanhã? O CICV (Comitê Internacional da Cruz Vermelha) também tem uma equipe cirúrgica, mas muitas organizações evacuaram; é questão de esperar para que retornem.
Claro que não estamos esperando; estamos trabalhando! As instalações de saúde também estão operando. MSF não está ali para atender todas as demandas e, sim, dar suporte às instalações. Em relação aos deslocados, a situação deve ser monitorada de perto, já que estamos observando que algumas pessoas estão retornando a Rutshuru e não estão sendo reassentadas em Kanyaruchinya.
Quais são os desafios mais significativos para você como profissional de MSF?O mais difícil tem sido levar profissionais estrangeiros para Goma, já que o contexto está mudando rapidamente. Os obstáculos logísticos para alcançar determinadas áreas podem também dificultar a mensuração das demandas ou a estruturação das atividades. Por exemplo, nós queríamos chegar a determinados campos de deslocados contornando o rio, por Bukavu, mas isso não é possível no momento. O mais importante para nós ainda é garantir a segurança da equipe de MSF e dos nossos pacientes.
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