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Mãe de paciente do centro de saúde de Kabo relata a dificuldade de obter alimento e acesso a cuidados de saúde em decorrência da insegurança no país
Hoje, representantes da República Centro-Africana (RCA), da União Europeia, da Organização das Nações Unidas (ONU) e de Estados doadores se reunirão em Bruxelas a fim de discutir possíveis medidas para a situação do país. Apesar de uma suposta normalização, a RCA continua enfrentando uma grave e constante crise no que diz respeito a desafios estruturais, questões de segurança e necessidades humanitárias.
Zita chegou ao centro de saúde de Kabo, no norte da República Centro-Africana (RCA), há dez dias. Ela veio com suas duas filhas, Marie, de dois anos de idade, e Nelpha, de cinco meses. Elas vieram de Ngoumouru, a cerca de 50 quilômetros de distância de Kabo, onde não há postos de saúde. Elas andaram 20 quilômetros de Ngoumouru a Farazala, e então foram transferidas de moto pela organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) até Kabo. Elas levaram um dia inteiro para chegar a seu destino.
Marie ficou doente há dois ou três meses. Primeiro ela sofreu de malária, o que a levou a uma desnutrição grave. Zita tinha levado a filha ao centro de saúde de Ouandago, próximo à casa de sua família. Ali, deram-lhe paracetamol e a mandaram de volta para casa com a filha. Elas ficaram em casa, esperando que a condição de saúde de Marie melhorasse. Zita não queria enfrentar novamente as estradas, com medo de que ela e a filha fossem atacadas por homens armados.
“Eu não costumo viajar pelas estradas devido à atual situação de segurança. Frequentemente, há homens armados nas estradas, exigindo coisas das pessoas que tentam passar por elas. Mesmo que você esteja de bicicleta ou de moto, eles te ameaçam por dinheiro, mesmo que você esteja transportando uma pessoa doente. Se você estivar a pé, às vezes eles te deixam passar sem pedir nada. Por isso viemos a pé. Não podemos economizar dinheiro para dar a eles: eles podem pedir de 250 a 500 francos CFA cada vez que formos passar.” (Nota: um dólar americano equivale a 590 francos CFA, e um pequeno pote de vegetais, suficiente para alimentar uma família por um dia, custa cerca de 650 francos CFA).
A última vez em que Zita foi roubada foi uma semana antes de ela sair para Kabo. Era uma da manhã quando três homens armados chegaram à casa onde ela vive com seu marido, suas duas filhas e outros nove membros da família. Os homens começaram a gritar, exigindo dinheiro e batendo nas pessoas. Eles começaram a atirar. Um membro de sua família precisou de atendimento médico após ser ferido na perna.
Recentemente, de acordo com Zita, houve menos roubos que o usual. Porém, isso se deve mais à temperatura do que a razões políticas. “Estamos na temporada de chuvas, então há menos pasto seco à beira das estradas. Os bandidos têm menos lugares para se esconderem”, diz ela. “Assim que a temporada de secas começar, a situação vai piorar novamente.”
Há algum tempo, Zita era agricultora. Porém, até os campos agora são controlados por homens armados, que impedem os fazendeiros de trabalharem em seus terrenos a fim de permitir que seu gado paste no local. Hoje, Zita se alimenta de inhames selvagens plantados em florestas próximo de sua casa. Ela vai colhê-los com um grupo de mulheres por questões de segurança. Elas sabem que podem ser atacadas, mas não tem outra opção.
Conforme a condição de saúde de Marie piorava, Zita decidiu deixar sua casa e pegar a estrada até o centro de saúde com suas duas filhas e seu marido, apesar de todos os seus medos. Graças aos cuidados que Marie recebeu durante os últimos dez dias no centro de saúde de MSF em Kabo, ela está se recuperando. Contudo, ela ainda está fraca, e seu rosto continua inchado por edemas.
Desde 2006, equipes de MSF vêm oferecendo assistência médica a mais de 50 mil pessoas em Kabo. De janeiro a junho de 2016, MSF realizou mais de 30 mil consultas no centro de saúde de Kabo (sendo um terço dos casos de malária) e assistiu mais de 600 partos. Cerca de 2.700 pessoas receberam cuidados hospitalares.
Para saber mais sobre a conferência e a atual situação da RCA, clique aqui.
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