As condições no campo de refugiados de Um Rakuba, no Sudão, deterioram-se à medida que a assistência diminui, com escassez crítica de cuidados de saúde, água e alimentos.

O campo esquecido no Sudão onde as ONG quase desapareceram

A crise no Sudão agravou-se drasticamente, tornando o acesso a serviços básicos uma exceção. O campo de Um Rakuba, no Leste do país, reflete este abandono crescente

  • As condições em Um Rakuba deterioram-se à medida que a assistência diminui, com escassez crítica de cuidados de saúde, água e alimentos.
  • O número de organizações a manter projetos no campo reduziu-se de 35 para menos de dez desde 2021, sobrecarregando a resposta humanitária.
  • A MSF assume a responsabilidade principal pelos cuidados no campo, onde 80 por cento das consultas são prestadas a comunidades sudanesas de acolhimento, devido ao colapso dos sistemas de saúde locais.

 

Em todo o Sudão, a palavra “grave” tornou-se a norma. Há escassez de cuidados de saúde, nutrição, água potável e do essencial para a sobrevivência em muitas áreas. E, à medida que as necessidades se tornam mais extremas, as crises locais têm de atingir níveis quase catastróficos apenas para atrair atenção e desbloquear financiamento de emergência.

O campo para pessoas refugiadas de Um Rakuba, no Leste do Sudão, ainda não atingiu o limiar catastrófico. No entanto, muitos dos sinais de alerta já se manifestam.

 

Em Um Rakuba, o campo que acolhe 17 mil refugiados, a MSF é hoje a principal prestadora de cuidados de saúde.
Em Um Rakuba, o campo que acolhe 17 mil refugiados, a MSF é hoje a principal prestadora de cuidados de saúde. © MSF

 

Ao percorrer o hospital no campo, o som que mais se ouve é o choro de recém-nascidos que chegam ao mundo ou que estão a receber tratamento para a malária, desnutrição e outras emergências médicas. É um som que se sobrepõe a tudo o resto.

Um Rakuba acolhe pessoas refugiadas da Etiópia desde 2020, quando um conflito eclodiu na região etíope de Tigré. O campo alberga cerca de 17 mil pessoas refugiadas, a maioria mulheres e crianças.

A Médicos Sem Fronteiras (MSF) tem estado presente desde o início da resposta, apoiando o hospital do campo e prestando cuidados médicos de emergência. Quando a guerra no Sudão eclodiu em 2023, o hospital tornou-se muito mais do que uma unidade de saúde para pessoas refugiadas. Hoje, cerca de 80 por cento das consultas são destinadas a pessoas das comunidades sudanesas de acolhimento, provenientes de uma população circundante de cerca de 100 mil pessoas.

“Vim até aqui porque três ou quatro hospitais na nossa zona fecharam”, conta Manasak, uma mulher sudanesa que procura cuidados para a tia e para o filho no hospital do campo de Um Rakuba. “Para onde mais podemos ir? Precisamos de mais apoio, e não apenas para as comunidades sudanesas, mas também para as pessoas refugiadas.”

 

Uma a uma, as ONG partiram

No auge da resposta à crise de refugiados da Etiópia em 2021, cerca de 35 organizações nacionais e internacionais operavam dentro e nas imediações do campo para pessoas refugiadas de Um Rakuba. Hoje, restam menos de dez.

Muitas organizações dependiam fortemente do financiamento do ACNUR, a agência da ONU para os refugiados. À medida que os orçamentos dos doadores para o setor humanitário diminuíram, os serviços sofreram cortes em conformidade.

As consequências são visíveis em todos os setores. As lideranças comunitárias comunicam regularmente às equipas da Médicos Sem Fronteiras a degradação do acesso aos cuidados de saúde primários, serviços de proteção, água e saneamento, ajuda alimentar e educação.

 

O hospital da MSF em Um Rakuba permanece como uma das poucas unidades de saúde ativas na região.
O hospital da MSF em Um Rakuba permanece como uma das poucas unidades de saúde ativas na região. © MSF

 

“As nossas equipas de promoção da saúde ouvem constantemente preocupações sobre o declínio dos serviços essenciais”, avança a coordenadora de projeto da MSF no hospital do campo, Zelie Antier. “As comunidades continuam a depositar uma grande confiança na MSF, mas estão a pedir um maior trabalho de advocacy para colmatar as lacunas crescentes. As organizações locais que apoiam mulheres e crianças, muitas vezes, não têm os recursos necessários para responder às crescentes necessidades.”

O impacto vai muito além dos cuidados de saúde. As vias de referenciação para proteção das pessoas refugiadas enfraqueceram, particularmente para mulheres e crianças, incluindo menores não acompanhados. As falhas no abastecimento de água e saneamento afetam tanto a comunidade como o nosso hospital. As pessoas refugiadas relatam reduções na ajuda alimentar, enquanto as interrupções nos tratamentos nas unidades de cuidados de saúde primários estão a provocar complicações médicas mais graves até ao momento em que as pessoas chegam à MSF.

A ausência de organizações humanitárias está a deixar as comunidades com menos opções, numa altura em que as necessidades continuam a aumentar.

 

Uma guerra por recursos

O estado de El-Gedaref não é uma linha da frente no sentido tradicional. No entanto, o estado tem suportado uma carga pesada desde que a guerra no Sudão começou.

Em 2024, mais de um milhão de pessoas sudanesas foram deslocadas de áreas que registaram combates intensos, como Cartum, Sennar e Al Jazirah, exercendo uma enorme pressão sobre serviços já limitados. Simultaneamente, os surtos de cólera levaram os sistemas de saúde locais ao limite.

Para muitas pessoas, a crise tornou-se uma guerra por recursos.

A médica Tanya Hajj Hassan, uma pediatra da MSF que visitou El-Gedaref há quase um ano, recorda-se de atravessar campos verdes férteis no seu caminho para o hospital.

“O Sudão já foi chamado ‘de cesta de alimentos’ da região”, recorda ela. “No entanto, todos os dias tratávamos crianças com desnutrição aguda grave. Em toda a minha carreira, nunca vi este nível de desespero.”

O que mais a impressionou foi a perda de esperança entre muitas mães.

“A primeira vez que observei isso foi quando uma mãe trouxe o filho ao serviço de urgência em estado muito crítico”, conta. “Enquanto reanimávamos a criança, ela perguntou se podia ir embora. Explicámos que a criança poderia morrer e ela simplesmente aceitou. Penso que isso reflete o quanto as mortes de crianças se tornaram tragicamente normalizadas no Sudão.”

 

Não podemos ficar sozinhos

Quase um ano após a visita da médica Tanya, muitos dos mesmos desafios permanecem no campo.

A assistência alimentar continua a ser insuficiente. Atualmente, as pessoas refugiadas recebem cerca de 4 kg de trigo por pessoa por mês, baixando para cerca de 2,5 kg em alguns meses – comparado com cerca de 14 kg no início de 2023, antes da guerra no Sudão ter eclodido em abril.

Além disso, não existem latrinas suficientes e os abrigos continuam a ser inadequados. As preocupações com a proteção continuam a aumentar. Os cortes no financiamento continuam a afetar os serviços de água e saneamento, os abrigos, as atividades de proteção e os cuidados de saúde primários.

 

As equipas da MSF em Um Rakuba mantêm o compromisso de trabalhar lado a lado com a comunidade para assegurar cuidados de saúde.
As equipas da MSF em Um Rakuba mantêm o compromisso de trabalhar lado a lado com a comunidade para assegurar cuidados de saúde. © MSF

 

A MSF continua a ser a única prestadora de cuidados de saúde secundários e de serviços abrangentes para violência sexual e com base no género no campo. O acesso aos cuidados de VIH, tuberculose e doenças tropicais negligenciadas permanece severamente condicionado, enquanto surtos recorrentes de cólera, sarampo, malária e meningite continuam a ameaçar as comunidades em situação de vulnerabilidade.

“Em todos os setores, desde os cuidados de saúde e proteção até à água, saneamento, alimentação e educação, as pessoas dizem-nos que se sentem cada vez mais abandonadas”, afirma o coordenador de projeto da MSF, Mohamed Ahmed. “Sem um aumento do financiamento e uma presença humanitária mais forte, as pessoas continuarão a enfrentar um sofrimento evitável. A MSF, sozinha, não consegue dar resposta a estas necessidades.”

A MSF já tinha soado o alarme em El-Gedaref, alertando as organizações humanitárias e as agências da ONU sobre a deterioração das condições de vida e dos serviços essenciais dentro e em redor do campo de Um Rakuba. No entanto, apesar dos sinais de alerta e das necessidades crescentes, não se concretizou qualquer plano claro para reforçar a assistência.

As organizações locais sudanesas continuam a prestar apoio vital, muitas vezes com recursos extremamente limitados. A contribuição é essencial, mas não pode substituir uma resposta humanitária totalmente financiada.

“O nosso apelo aos doadores e às organizações humanitárias é que passem das palavras às ações”, diz Ahmed. “As comunidades não podem sobreviver de promessas. Precisamos de serviços de proteção mais fortes, da restauração dos cuidados de saúde primários e de um maior investimento nos serviços essenciais. As pessoas refugiadas não podem ser esquecidas no contexto da crise mais vasta no Sudão.”

As pessoas de Um Rakuba não pedem simpatia. Pedem o mínimo que todo o ser humano merece: cuidados de saúde, proteção e a oportunidade de viver com dignidade.

Os choros dos recém-nascidos ainda ecoam pelas enfermarias do hospital de Um Rakuba. Mães que são pessoas refugiadas e membros da comunidade de acolhimento continuam a chegar à procura de cuidados.

A questão não é se as necessidades existem. A questão é se ainda há alguém disposto a dar resposta a essas necessidades.

 

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