A Médicos Sem Fronteiras (MSF) é uma organização humanitária internacional que leva cuidados de saúde a pessoas afetadas por graves crises humanitárias. Também é missão da MSF chamar a atenção para as dificuldades enfrentadas pelos pacientes atendidos em seus projetos.
Como organização médica, buscamos sempre oferecer o melhor tratamento disponível aos nossos pacientes. O trabalho de MSF envolve uma grande variedade de atividades, desde a organização de campanhas…
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Atualização de julho 2024
Em julho de 2020, a liderança internacional da Médicos Sem Fronteiras (MSF) assumiu o compromisso público de abordar a discriminação institucional e o racismo dentro da nossa organização. O Comité Executivo Central (Core ExCom) prometeu “liderar o caminho para as medidas radicais que as nossas associações procuram e exigem”. Este compromisso surgiu no contexto de poderosos movimentos a nível mundial a favor da equidade racial e da equidade na saúde, parcialmente estimulados pelos impactos da pandemia de COVID-19. Ocorreu também no seguimento de anos de advogacia por parte do staff da MSF a instar para esta mudança.
Em 2020, o Core ExCom (ver glossário no final da página) definiu um Plano de Ação, identificando sete áreas-chave ou prioritárias que exigiam ações urgentes e concretas:
No início de 2022, apresentámos uma atualização dos progressos realizados nos 18 meses anteriores, até dezembro de 2021. Quase quatro anos depois do compromisso inicial do Core ExCom, e dois anos desde a última atualização, descrevemos aqui o nosso progresso nestas sete áreas durante os anos de 2022 e 2023.
Estamos a partilhar publicamente os nossos progressos, dado que queremos que as pessoas do staff, pacientes, comunidades, doadoras/es, partes interessadas e o público em geral conheçam a nossa situação em cada uma destas áreas, incluindo aquelas em que estamos com dificuldades em avançar. Consideramos que esta é a melhor forma de sermos transparentes e de demonstrar que nos responsabilizamos pelas nossas ações. No final de 2023 fizemos um balanço daquilo que conseguimos realizar nos dois últimos anos e o que ainda nos falta fazer.
Ao trabalharmos nas sete áreas acima referidas, o Core ExCom deu prioridade à abordagem contra abusos e comportamentos inapropriados, assim como às desigualdades no sistema de recompensas e remuneração do nosso staff.
“O nosso staff, as/os membros da associação, parceiras/os, doadoras/es e as comunidades que servimos esperam resultados nas áreas que nos comprometemos a melhorar. Apesar de termos feito progressos significativos em algumas áreas desde o lançamento do Plano de Ação, noutras áreas reconhecemos que ainda temos mais para fazer. É por isso que nos comprometemos a criar e atualizar um Plano de Ação com etapas claras que nos levam até ao final do nosso atual período estratégico no final de 2025. Hoje, esperamos que esta atualização ofereça uma ideia dos progressos que realizámos, e que as nossas partes interessadas continuem a responsabilizar-nos por conseguirmos fazer este importante trabalho.” – Christos Christou, Presidente Internacional da MSF
Esta não é uma lista exaustiva de todas as iniciativas para abordar a discriminação e o racismo na MSF, mas sim um resumo de alguns dos principais avanços realizados em todo o movimento desde o lançamento do Plano de Ação, baseado nas prioridades acordadas pelo Comité Executivo (ExCom) da MSF. Existem inúmeras iniciativas levadas a cabo nos nossos projetos e nas Direções Operacionais (DO) que não estão incluídas nesta atualização.
A fim de providenciar clareza e ajudar à compreensão das plataformas de tomadas de decisão e de liderança da MSF, incluímos um pequeno glossário da terminologia utilizada na MSF que é referida no presente documento.
Gestão de abusos e comportamentos inapropriados
Abordar questões relacionadas com abusos tem sido uma das máximas prioridades da liderança da MSF. Nos últimos dois anos, foi dada maior atenção a estas questões e foram feitos mais esforços para as abordar. Continuamos a recolher dados sobre queixas relacionadas com os comportamentos na MSF. Pode consultar aqui os dados desagregados do número e tipo de queixas que recebemos (apresentadas pelo staff, pelas/os pacientes e cuidadoras/es, pelas pessoas das comunidades, e outras/os), assim como das queixas que se confirmam a cada ano. Apesar de se verificar um aumento anual no número de denúncias recebidas, sabemos que ainda há muito por fazer para facilitar que os abusos possam ser reportados por qualquer pessoa afetada, que os testemunha ou que com eles se preocupe.
A MSF continua a fazer esforços para criar um ambiente livre de abusos e danos para o nosso staff e pacientes, para as/os suas/seus cuidadoras/es e para as comunidades nas quais trabalhamos. Com este propósito, é fundamental um enfoque na prevenção e na deteção de abusos, assim como em tornar os mecanismos de denúncia acessíveis e inclusivos. Quando são apresentadas queixas devido a abusos, também é essencial assegurar que existem pessoas suficientes e adequadamente formadas para os abordar, a fim de confirmar o nosso compromisso de que levamos a sério as alegações de abusos, para as atender atempadamente e adotar medidas de resposta e corretivas caso seja concluído que tal ocorreu.
Ao longo dos últimos dois anos, temos avançado nos nossos esforços para prevenir, detetar e abordar abusos, mediante:
Acresce que muitas atividades requerem um trabalho contínuo. Por exemplo, a sensibilização e consciencialização sobre os comportamentos esperados da parte do staff e sobre como e onde apresentar queixa por abusos; a formação do staff; a formação das/os responsáveis por acolher as pessoas queixosas; as avaliações de risco; a contratação segura e a gestão de desempenho; a intensificação dos esforços em matéria de diversidade, equidade e inclusão (DEI); as abordagens centradas nas/os pacientes; a gestão e investigação de casos; a melhoria do acesso aos mecanismos de queixa (incluindo pacientes e comunidades); e a compreensão dos obstáculos às queixas.
Recompensas ao staff, incluindo remuneração e benefícios
“Ouvimos as opiniões do nosso staff e estamos a esforçar-nos para conseguir uma maior equidade e transparência na forma de remunerar as pessoas pelo trabalho que prestam na MSF. Através da Revisão de Recompensas, fizemos uma análise profunda às nossas políticas e processos existentes, e elaborámos propostas sobre o que é necessário mudar. Esta mudança é complexa e ambiciosa, mas não nos podemos permitir não ter êxito.” – Christos Christou, Presidente da MSF Internacional
Temos consciência de que as políticas e processos salariais e retributivos da MSF não se alinham com a nossa ambição de contar com uma força laboral diversa a nível global. Não correspondem de forma adequada aos nossos requisitos operacionais e organizacionais, levam a inconsistências, dificultam a mobilidade, e são percecionados como desiguais por muitas pessoas do nosso staff. Para abordar estas desigualdades, tomámos as seguintes medidas ao longo dos últimos dois anos:
Estas são mudanças muito significativas e que irão demorar vários anos até se encontrarem plenamente executadas. Contudo, desde outubro de 2023, foram concretizadas melhorias cruciais para algumas pessoas do staff:
Exposição ao risco – segurança e proteção
Tem sido parte integral das operações da MSF trabalhar em contextos de violência e de conflito desde os primórdios de existência da organização. Garantir a segurança do nosso staff é uma das nossas maiores prioridades e desafios. Escolhemos as zonas onde levamos a cabo os nossos projetos e, ao fazê-lo, procuramos antecipar, prevenir e abordar as ameaças de segurança nos mesmos.
Restrições em recursos humanos para o staff que trabalha nos nossos programas baseadas em critérios não-profissionais – género, etnia, aparência física, religião, idade, nacionalidade, etc. – pode ser imposta à MSF por organizações externas, tais como Estados ou grupos armados, ou decididas pela MSF. Esta é uma cedência no nosso modo preferencial de trabalhar, e tentamos limitar ao máximo o uso destas restrições.
Quando são decididas pela MSF, as duas razões que justificam essas restrições em recursos humanos são as seguintes:
Os processos de restrições em recursos humanos, a tomada de decisões nesta matéria e respetiva execução, são da tutela interna de cada Diretoria Operacional (DO), contudo, os processos são divididos entre DO. Acresce que a tipologia e localização das restrições também são partilhadas e revistas uma vez por ano na Reunião Internacional de Diretoras/es Operacionais (RIOD); cada DO é responsável pela atualização de informação nesta ferramenta comum.
Em geral, a responsabilidade pelas medidas de proteção e segurança do nosso staff recai principalmente sobre as DO, às quais está atribuída a maior parte deste trabalho. Assim, o propósito do plano do Core ExCom nesta matéria é prestar assistência na coordenação destas medidas.
Recrutamento e desenvolvimento de pessoal
O modelo atual relativamente ao staff da MSF levou a um acesso desigual ao recrutamento e às oportunidades de desenvolvimento de carreira. Isto contribui para uma falta de diversidade na composição das equipas, para desproporção em termos de género na composição das equipas dos programas, para dificuldades do staff contratado a nível local no acesso a postos de coordenação e gestão, e deu lugar a uma sobrerepresentação de staff de origem ocidental em postos sénior e de liderança.
A nossa estrutura organizativa descentralizada, com múltiplas entidades legais empregadoras e diferentes políticas e práticas de recursos humanos, representa um desafio crucial no que se refere ao recrutamento, retenção e desenvolvimento do nosso staff. Não existe uma estratégia organizativa laboral única e os nossos princípios aplicam-se de forma diferente nas diferentes Direções Operacionais (DO) e entidades da MSF. Dado que várias das nossas DO reportam uma escassez de pessoal internacional móvel com experiência, outro desafio é como reter staff experiente, ao mesmo tempo que se recruta e desenvolve staff novo a nível internacional e local, e se inverte a desproporção de género no pessoal que trabalha em mobilidade.
Para fazer face a estas e outras desigualdades, nos últimos dois anos, alcançámos os seguintes objetivos:
Melhoria dos relatórios e da análise de dados – o Relatório de Dados e Tendências sobre Staff de 2022, publicado em junho de 2023, incluiu uma análise melhorada e relatórios mais detalhados sobre a composição da força laboral da organização, a fim de nos ajudar a melhorar o nosso entendimento sobre as/os nossas/os trabalhadoras/es e respetiva evolução. As DO estão a usar esta informação para elaborar abordagens de recrutamento e de desenvolvimento através da Plataforma de Recrutamento e Gestão de Carreira.
Comunicação e angariação de fundos
“Assumimos o compromisso de respeitar a dignidade e a capacidade de ação e de tomada de decisão das pessoas que tratamos, e reconhecemos que isto é fundamental para cumprirmos o nosso dever de prestar testemunho e falar sobre o sofrimento humano. Estamos a trabalhar no sentido de melhorar as nossas diretrizes, normas e políticas, e também estamos a mudar a nossa própria mentalidade.” – Christos Christou, Presidente da MSF International
Dado que os materiais de comunicação e de angariação de fundos da MSF são a imagem pública da organização, foram feitos apelos para que estes materiais respeitem e demonstrem a dignidade e a capacidade de ação e de tomada de decisão de pacientes e do staff da organização, e para eliminar perceções de salvador/a branco/a, de neocolonialismo e de racismo – este apelos tornaram-se urgentes tanto dentro como fora da MSF. Apesar de haver muito por fazer, verificámos progressos significativos na consecução dos objetivos estabelecidos para a Comunicação e para a Angariação de Fundos na MSF no que diz respeito às questões de diversidade, equidade e inclusão (DEI). Entre eles, figuram:
Proposta de contratos para fotógrafos – após ser emitido alerta de que imagens que não cumprem os nossos compromissos em matéria de DEI, e que tinham sido registadas anteriormente em estruturas da MSF, continuavam a estar disponíveis para a distribuição por parte de fotógrafas/os ou através de agências de fotografia, foram analisados e revistos os contratos para as/os fotógrafas/os e elaboradas propostas de novas cláusulas e contratos.
Padrões de cuidados a pacientes e comunidades com que trabalhamos
A MSF assumiu o compromisso de integrar sistematicamente a diversidade, a equidade e a inclusão na hora de decidir onde e como damos resposta nos países em que trabalhamos, e ao estabelecer padrões de cuidados para as comunidades nas quais trabalhamos. Este compromisso coloca no cerne as pessoas que servimos, assegurando simultaneamente que o nosso staff preste cuidados de forma inclusiva e não discriminatória.
Estamos a trabalhar no sentido de aplicar estes princípios às nossas políticas, atividades e iniciativas médicas, com base em três pilares-chave de trabalho:
Ao longo dos últimos dois anos, o trabalho nesta área incluiu:
Governança executiva e representação
A história da fundação da MSF e a forma como a organização evoluiu nos últimos 50 anos fez com que o poder e a estrutura de tomada de decisões dentro da mesma se tenham concentrado na Europa. Nos anos recentes, questionámos a distribuição de poder e de decisão no movimento MSF. Desde a criação da direção operacional da África Ocidental e Central em 2019 – que outorgou pela primeira vez fora da Europa a tomada de decisões sobre onde e como se levam a cabo operações da MSF – começou a verificar-se lentamente uma mudança. Contudo, as entidades com tomada de decisão na MSF continuam a estar, maioritariamente, na Europa.
Para solucionar isto, estamos a abordar e a avaliar de forma crítica a nossa estrutura. Estamos a fazê-lo através de um projeto que nos permitirá manter um sistema de governança sólido e responsável, mas que irá proporcionar maior flexibilidade ao ter entidades decisórias estabelecidas fora da Europa.
Até ao final de 2023, o grupo completo do Comité Executivo (Full ExCom) desenvolveu um documento com uma visão sobre como gerir o número e a localização das entidades atuais e futuras, mantendo sempre no centro das decisões os benefícios que estas entidades trazem ao trabalho da MSF.
“Reconhecemos que os progressos nos nossos compromissos desde que lançámos o Plano de Ação têm sido desiguais. Em alguns âmbitos, avançámos a passos largos, noutros avançámos muito pouco. Sabemos que temos que continuar a melhorar em todas as áreas. O que delineámos aqui não é uma lista exaustiva daquilo que estamos a fazer, mas continuamos a trabalhar arduamente e a trazer mais avanços.” – Christos Christou, Presidente da MSF International.
Iniciámos processos que, em última instância, consistem em mudar a nossa cultura, a nossa governança e a nossa forma de trabalhar. Mesmo que a plena concretização demore tempo, estamos determinados em levar a cabo estes processos transformadores. Acreditamos que estas reformas organizativas irão marcar a diferença para o nosso staff, as/os nossas/os pacientes e para as nossas comunidades.
Progredimos significativamente em algumas áreas nos últimos dois anos, mas reconhecemos que noutras não houve tantos avanços como tínhamos previsto. Sabemos que não podemos parar agora; assumimos o compromisso de continuar a avançar.
Glossário das plataformas de tomada de decisões na MSF
Conselho Diretivo Internacional (International Board) – é a direção da MSF Internacional. Age em nome da Assembleia Geral Internacional, à qual presta contas. Encabeçado pela/o Presidente Internacional, o Conselho Diretivo Internacional é composto por pessoas eleitas e cooptadas. Informação completa aqui.
Comité Executivo (ExCom)
Grupo completo do Comité Executivo (Full ExCom) – órgão executivo de tomada de decisões composto pelas/os diretoras/es-gerais das 24 secções da MSF e pela/o secretária/o médica/o internacional; presidido pela/o secretária/o-geral internacional.
Comité Executivo Central (Core ExCom) – órgão executivo central de tomada de decisões, composto pelas/os diretoras/es-gerais / diretoras/es-executivas/os das seis Direções Operacionais, pelas/os diretoras/es-gerais de duas secções parceiras, que são eleitas/os, e pela/o secretária/o médica/o internacional; presidido pela/o secretária/o-geral internacional.
Direções Operacionais (DO) – as seis Direções Operacionais decidem onde, sobre o quê, quando e como é que a MSF dá resposta às necessidades médicas e humanitárias nos países em que trabalhamos; funcionam independentemente umas das outras e têm as respetivas sedes em Amesterdão, Barcelona, Bruxelas, Genebra, Paris, e uma DO para a África Ocidental e Central com sede em Abidjan, na Costa do Marfim.
Reunião Internacional de Diretoras/es Operacionais (RIOD) – originalmente em francês/inglês, Réunion Internationale de Operational Directors. Plataforma formada pelas/os diretoras/es das seis Direções Operacionais da MSF; presidida pelo/a coordenador/a da Representação Humanitária de Operações Internacionais.
Plataforma Internacional de Diretoras/s de Recursos Humanos (IDRH) – plataforma composta pelas/os diretoras/es de Recursos Humanos das seis Direções Operacionais e por dois/duas diretoras/es de Recursos Humanos de secções, que são eleitas/os; presidida pelo/a coordenador/a internacional de Recursos Humanos.
Plataforma de Diretoras/es de Comunicação (DirCom)
Grupo completo de Diretoras/es de Comunicação (Full DirCom) – plataforma composta pelas/os diretoras/es de Comunicação e responsáveis de Comunicação de cada secção do movimento; presidida pelo/a coordenador/a internacional de Comunicação.
Grupo de Diretoras/es de Comunicação dos DO (DirCom5) – órgão central de tomada de decisões em matéria de Comunicação, composto pelas/os diretoras/es de Comunicação das seis Direções Operacionais, mais as/os diretoras/es de Comunicação de duas secções associadas, que são eleitas/os; presidida pelo/a coordenador/a internacional de Comunicação.
Plataforma de Diretoras/es de Angariação de Fundos (DirFund) – plataforma composta por cinco responsáveis de Angariação de Fundos eleitas/os pelas secções ou escritórios filiados da MSF; presidida pelo/a coordenador/a internacional de Angariação de Fundos.
Plataforma de Diretoras/es Médicas/os (DirMed) – composta pelas/os diretoras/es médicas/os das seis Direções Operacionais, o/a diretor/a médico/a da Campanha Acesso, o/a coordenador/a internacional médico/a e a/o secretária/o internacional médica/o.
Plataforma de Diretoras/es Médicas/os e Operacionais (MedOp) – composta por representantes das plataformas DirMed e RIOD: as/os diretoras/es médicas/os e operacionais das seis Direções Operacionais, as/os diretoras/es-executivas/os e médicas/os da Campanha Acesso, o/a coordenador/a internacional médico/a e o/a coordenador/a da Representação Humanitária de Operações Internacionais; presidida pela/o secretária/o internacional médica/o.
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