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As características das pessoas que moram nas ruas são tão diversas quanto os motivos que as levaram a viver na rua. Um levantamento feito pela equipe do projeto Meio-fio ajuda a traçar perfil desta população.
Irã Regis Barbosa, 63 anos, nasceu na Paraíba. Estudou até a 5ª série, mas abandonou os estudos ainda cedo para ajudar em casa. Já foi casado e tem três filhas. Renato Alves de Carvalho, 45 anos, carioca, já foi casado e tem um filho de 17 anos. Completou o ensino médio, serviu à marinha e trabalhou por doze anos como supervisor de segurança do trabalho na bacia de campos. Com trajetórias de vida tão diferentes, Irã e Renato não perecem ter muito em comum. Mas ambos, por motivos diversos, vivem hoje nas ruas do Rio de Janeiro.
As características das pessoas que vivem nas ruas são tão diversas quanto os motivos que as levaram a viver na rua. Em contato diário com essa população, os profissionais do projeto Meio-fio lidam de perto com o estigma imposto pela sociedade. Com o objetivo de aperfeiçoar o trabalho de saúde desenvolvido, mas também na tentativa de revelar a heterogeneidade da população atendida, a equipe desenvolveu um levantamento para traçar as características das pessoas que vivem nas ruas da cidade. “Os resultados ajudam a desconstruir mitos que a sociedade cria e alimenta sobre essa população”, comenta Xavier Tislair, coordenador do projeto Meio-fio.
A pesquisa foi feita com 593 moradores de rua atendidos pelo projeto Meio-fio. Os dados mostram, por exemplo, que grande maioria tem algum nível de estudo, enquanto apenas 5,5% não sabem ler ou escrever. Renato, por exemplo, 45 anos, completou o ensino médio e chegou a trabalhar como supervisor de segurança do trabalho. Quando deixou o emprego, a vida dele começou a mudar. “O tempo que fiquei desempregado eu não procurei emprego só gastei o dinheiro que tinha, quando percebi não tinha mais nada. Acabei indo pra rua”, explica ele.
Quanto à procedência das pessoas que habitam as ruas do Rio de Janeiro, a pesquisa revela que apenas 27% delas vêm de fora do estado do Rio de Janeiro.
Quando perguntados sobre os motivos que os levaram a viver nas ruas, a maioria fala da situação financeira e da família. A desestrutura familiar, nas diversas formas em que ela se manifesta, é responsável pela ida para a rua de 32% das pessoas entrevistadas. Ricardo tem 26 anos e mora há 6 na rua. Mas, segundo conta, já freqüenta as ruas da cidade desde menino. “Desde 7 anos que vou pra rua e volto pra casa. Quase todas as vezes que saí de casa foi porque tive problemas com meu pai”, conta Ricardo, que mora hoje no Largo de São Francisco e no Largo da Carioca, no centro do Rio.
Uma das possibilidades da equipe do Meio-fio criar vínculo com a família dos usuários é através da visita domiciliar. A assistente social do projeto, Dalila Franco, explica que a visita domiciliar ocorre tanto a partir de uma solicitação do beneficiário, quanto após uma avaliação da equipe, ou dela própria. “Em determinados casos, a visita domiciliar é muito importante, principalmente porque através dela podemos entender melhor a história do usuário. A visita domiciliar é um dos instrumentos do Serviço Social no projeto”, esclarece Dalila.
As posturas diante da vida na rua e os meios de subsistência de que lançam mão também diferem. A pesquisa mostra que menos de 1% das pessoas que vivem nas ruas são pedintes, e apenas 1,5% pratica furtos. A grande maioria exerce atividades pelas quais recebe algum tipo de remuneração, como por exemplo os catadores de latinha ou papelão, que totalizam 40% dos entrevistados. Radson Barreto tem 41 anos e está na rua há 2 meses. Já conseguiu um emprego de vigia na área onde mora e está buscando alternativas para deixar as ruas. “Hoje o meu principal objetivo é lutar para sair dessa vida”, diz ele. “Meu salário sai semana que vem. A primeira coisa que vou fazer com este dinheiro vai ser alugar um quartinho pra minha esposa dormir”, desabafa. Já Ricardo não tem intenção de sair da rua. Pelo contrário, ele vê a rua como uma forma de buscar seu sustento. “Hoje me sustento e ajudo a minha mãe catando latinha, papelão, papel. Moro no Largo de São Francisco e no Largo da Carioca durante a semana e no final de semana vou pra casa da minha mãe em Nova Iguaçu”, explica. E completa “Uma coisa que graças a Deus eu nunca fiz foi roubar. Pedir, eu peço mesmo, mas roubar, nunca fiz isso. Eu falo, tenho braço e tenho perna tenho a obrigação de me virar pra trabalhar”. O que se assemelha em todas essas pessoas, no entanto, é o peso do estigma e do preconceito.
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