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De acordo com Helen O’Neill, depois de 15 anos de conflito, muitos congoleses conheceram apenas a guerra
Helen O'Neill é uma consultora operacional da agência de ajuda médica emergencial Médicos Sem Fronteiras (MSF). Ela retornou recentemente depois de ter trabalhado com equipes de MSF na região dos Kivus, nordeste da República Democrática do Congo (RDC), onde, hoje, milhares de pessoas estão fugindo desesperadamente da violência à medida que o conflito de 15 anos se transforma em uma guerra aberta. Aqui, Helen descreve a situação no terreno.
"A situação na região dos Kivus está piorando rapidamente e mudando a cada hora que passa. Sistematicamente desalojadas pelo conflitos, as pessoas que conheci nas clínicas de MSF, nos campos de refugiados ou à beira da estrada já estavam doentes, exaustas ou com medo. Agora, estão sendo forçadas, aos milhares, a fugir para salvar suas vidas novamente.
"A parte nordeste do país está arrasada depois de anos de conflitos e derramento de sangue e as necessidades de saúde da população são enormes. Mesmo com a atual escalada da violência, nossas equipes continuam a oferecer ajuda médica emergencial independente a pessoas nas cidades e campos através da zona de conflitos, nas regiões de Kitchanga, Masisi, Mweso, Nyanzale, Rutshuru, Kayna e adjacências. Em muitas áreas, MSF é a única organização internacional restante a oferecer assistências médica e humanitária para uma população aterrorizada e desesperada.
"Na semana passada, as equipes de MSF nas vilas de Mweso e Rutshuru ficaram presas em nossos dois hospitais, ouvindo um bombardeio pesado enquanto oferecia tratamento médico e salvava vidas do lado de dentro. Nos fins de semana, conflitos intensos irromperam ao redor da cidade de Rutshuru, cerca de 70 km distante da capital da província, Goma. Nossa equipe tratou 80 feridos de guerra e, desde então, está lutando contra o tempo para salvar as vidas de pacientes feridos gravemente.
"Mesmo assim, a atual escalada da violência causou um pânico generalizado. O terror que cruza o região dos Kivus é palpável. Algumas pessoas estão pegando suas crianças, cabras, se as tiverem, e empacotando seus pertences para carregá-los no topo de suas cabeças e fugir, mais uma vez, para qualquer lugar em que conseguirem achar algum tipo de segurança. Em uma semana uma vila está lotada e na próxima nossas equipes médicas móveis voltam para descobri-la completamente vazia – uma cidade fantasma. Milhares estão em movimento – um fluxo constante de pessoas nas estradas.
"Quem sabe onde todas elas vão acabar? As famílias se acomodam em áreas inóspitas, muitas delas nas florestas, onde não existe nenhuma chance de se ter acesso a saúde. Eles constroem abrigos de quaisquer materiais que conseguirem encontrar no local em que estão, como folhas bananeira, completamente expostos à estação chuvosa dessa época do ano e ao frio das noites congolesas.
"A violência está tendo um impacto devastador. Depois de anos sendo desalojadas, a saúde das pessoas é frágil, particularmente das crianças. A malária é endêmica no país, assim como é a cólera, que aumenta sempre que as pessoas estão se movendo dessas forma ou apertadas em campos de refugiados sem saneamento. A dura realidade é que essas crianças que conseguem escapar da violência atual nesta semana, podem morrer nas próximas por causa da mordida de um mosquito, simplesmente porque falta a elas acesso à assistência médica. A injustiça disso é dura de aceitar.
"As pessoas que conheci estão também com fome, já que não podem ir aos seus campos para a colheita. É simplesmente perigoso demais. Se você sair sozinha tentando chegar à sua terra, pode ser baleada ou estuprada. Então, a desnutrição é outra preocupação muito real. Em alguns lugares, é extremamente difícil achar os desalojados. Eles não conseguem nos alcançar e, sempre que conseguimos informações de seu paradeiro, tentamos chegar até eles com as clínicas móveis.
"É claro que a situação é desesperadora e nós estamos muito preocupados. Essas pessoas precisam de assistência humanitária imediatamente. Elas precisam de ajuda médica, abrigo, comida e água limpa – urgentemente.
"Nós estamos enviando uma equipe internacional extra para a região como apoio emergencial. No entanto, a violência precisa ser interrompida. Essas pessoas já sofreram muito. A maioria delas conheceram apenas a guerra e o desalojamento nesse ciclo de violência. A população civil é prisioneira em uma crise humanitária que não construiu, encurralada em um conflito que está roubando tudo o que ela possui – dignidade, segurança, saúde, casas, meios de vida e ultimamente, para muitos, suas vidas."
Helen O'Neill retornará à República Democrática do Congo em novembro.
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