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Desde meados de agosto, uma nova onda de violência vem assolando essa província da República Democrática do Congo, provocando deslocamentos em massa
A violência na província de de Kivu Norte, na República Democrática do Congo (RDC) aumentou desde agosto deste ano, fazendo com que centenas de milhares de pessoas tivessem de deixar suas casas, o que resultou em um grande obstáculo para que as pessoas tivessem acesso a cuidados de saúde. Jane Coyne, chefe de missão de Médicos Sem Fronteiras (MSF) na RDC, fala sobre a situação na região e explica qual impacto a falta de atendimento básico de saúde tem na população local.
Você poderia nos dizer o que os civis de Kivu Norte estão enfrentando em termos de necessidades médicas e acesso à saúde?
Nestes conflitos mais recentes, que tiveram início em meados de agosto, nós registramos uma nova onda de deslocamentos em massa. Nós realmente não sabemos quantos foram. Os números mudam todos os dias. De acordo com algumas estimativas, entre cem mil e 150 mil pessoas deixaram suas casas desde meados de agosto, somando-se às entre 300 mil a 500 mil já deslocadas outras vezes.
De qualquer forma, é um deslocamento em larga escala e a realidade é que essas pessoas que deixaram suas casas estão vivendo em condições realmente marginais. Agora vemos mais pessoas morando em acampamentos do que víamos em Norte Kivu nos últimos dez ou 15 anos. Essas pessoas estão morando em pequenas cabanas que são cobertas com lâminas de plástico, em uma tentativa de protegê-los contra a chuva. Eles estão impedidos de ir para os campos para fazer a colheita. Seu acesso a alimentos é quase que completamente dependente da capacidade das agências humanitárias os alcançarem e distribuírem comida.
Nos acampamentos de deslocados internos, as pessoas estão vivendo em condições relativamente precárias, o que aumenta o risco de transmissão de doenças. Nos últimos meses, nossas equipes trataram cólera e sarampo. Nós tivemos uma epidemia de sarampo em larga escala em nosso programa em Nyanzale e tivemos um aumento de patologias que vemos em épocas normais, além de um maior número de doenças mais severas como a malária, infecções respiratórias e diarréia.
O que as suas equipes registram ou tratam em um dia normal?
Nós temos atividades de cuidados primários e secundários. Em Rutshuru, por exemplo, nós administramos um hospital de 200 leitos, no qual oferecemos serviços de internação, pediatria, cirurgia e emergência. No hospital, nós tivemos um aumento de 50% de internações na terceira semana de outubro.
Para responder a essa demanda, acrescentamos tendas para aumentar a capacidade de realização de consultas, aumentamos os turnos de trabalho e reforçamos a farmácia com suprimentos adicionais. Nós podemos fazer tudo isso, mas obviamente há o desafio de manter a qualidade do atendimento.
Do ponto de vista de um atendimento primário, nós também temos clínicas móveis em Rutshuru. Essas unidades estão indo onde as populações deslocadas se reagruparam. Para um dia de atendimento da clínica móvel, devem ir no carro médicos, enfermeiras e medicamentos. Nós realizamos entre 100 a 150 consultas por dia e a maior parte delas de atendimento a crianças com menos de cinco anos. Nós tentamos focar nossas atividades nos pacientes mais vulneráveis.
Onde estão as pessoas às quais vocês não têm acesso? Por que esse é um problema grave?
O conflito em Norte Kivu envolve vários grupos armados, então cada vez que você passa uma das fronteiras controladas por um grupo armado, fica mais complicado ter acesso à população. Há locais na região onde nenhum organização internacional consegue entrar há muito tempo, então há lugares onde realmente não temos como saber qual é o estado da população.
O que mais impressiona na situação atual de Kivu Norte?
O que mais impressiona em Kivu Norte atualmente é a grandeza do problema, o grande número de deslocados, a magnitude das doenças. Como mencionei anteriormente, tivemos uma epidemia de sarampo, que é uma doença que não vemos mais em países ocidentais porque toda a população já foi vacinada. O problema agora é puramente a cobertura da vacinação. Nós registramos 500 casos de sarampo em um pequeno centro de saúde entre uma população relativamente pequena e não há motivos para que as crianças morram de uma doença capaz de ser prevenida.
Qual é a mensagem que você gostaria de passar ao público sobre a situação médica em Kivu Norte?
As pessoas não estão morrendo de doenças complicadas. Eles estão morrendo de problemas completamente capazes de serem prevenidos. Com o deslocamento que temos atualmente, eles estão vivendo sob péssimas condições, as crianças estão contraindo doenças respiratórias, que não estão sendo tratadas. Eles vêm para o hospital com pneumonia e aí já é muito tarde.
A longo prazo, o impacto da violência no Congo resulta na falta de acesso das pessoas aos cuidados de saúde e é por isso que lutamos todos os dias. Onde trabalhamos, estamos fazendo um bom trabalho, mas há milhares de lugares onde não estamos. As pessoas estão morrendo de coisas completamente possíveis de serem evitadas.
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