A Médicos Sem Fronteiras (MSF) é uma organização humanitária internacional que leva cuidados de saúde a pessoas afetadas por graves crises humanitárias. Também é missão da MSF chamar a atenção para as dificuldades enfrentadas pelos pacientes atendidos em seus projetos.
Como organização médica, buscamos sempre oferecer o melhor tratamento disponível aos nossos pacientes. O trabalho de MSF envolve uma grande variedade de atividades, desde a organização de campanhas…
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Em cinco anos de atividades, a MSF prestou mais de 76.000 consultas em regime de ambulatório e mais de 5300 em regime de internamento, assistiu mais de 4100 partos e tratou mais de 20.000 casos de malária
No final de março de 2021, grupos armados não estatais, que mais tarde se filiaram ao Estado Islâmico em Moçambique, atacaram e saquearam a vila de Palma, em Moçambique. Durante vários dias de cerco, foi reportado que mais de 1000 pessoas foram mortas e cerca de 67.000 deslocadas. O ataque isolou a vila costeira, que é conhecida internacionalmente por acolher grandes projetos de gás natural liquefeito, e teve consequências imediatas e devastadoras para as pessoas residentes e para o sistema de saúde, uma vez que algumas instalações médicas ficaram gravemente danificadas, incluindo o hospital distrital de Palma. Os profissionais médicos fugiram e comunidades inteiras ficaram sem cuidados.
“Quando chegámos, era um estado de emergência”, recorda a responsável de atividades de obstetrícia da Médicos Sem Fronteiras (MSF), Esperança Gabriel António. “As mulheres grávidas tentavam sobreviver à falta de alimentos enquanto levavam avante a gravidez.”
Quando chegámos, era um estado de emergência. – Esperança Gabriel António, responsável de atividades de obstetrícia da MSF
Quando chegámos, era um estado de emergência.
– Esperança Gabriel António, responsável de atividades de obstetrícia da MSF
Logo após o ataque, a MSF iniciou atividades médicas de emergência e desenvolveu ações de apoio em Afungi, onde milhares de pessoas procuravam refúgio após dias a caminhar pelas florestas sem comida nem água.
“Depois da guerra [ataque], fomos os primeiros a apoiar as instalações de saúde”, recorda o profissional clínico António João Jenga. “Os profissionais já lá não estavam.”
Durante algumas semanas, no pico da emergência, prestámos cuidados gerais de saúde, tratámos pacientes com traumatismos e doenças e facilitámos o encaminhamento e a transferência de pacientes em estado crítico num contexto em que nem os cuidados básicos de saúde existiam.
À medida que as condições de segurança evoluíram gradualmente e as pessoas começaram a regressar a Palma no final de 2021 e durante 2022, as necessidades de saúde mudaram, e a prestação de cuidados de emergência deu lugar ao imenso desafio de reconstruir os serviços de rotina.
A MSF expandiu as clínicas móveis para áreas carenciadas em todo o distrito de Palma, apoiando simultaneamente serviços essenciais no hospital distrital de Palma e noutras instalações. Em colaboração com o Ministério da Saúde, os cuidados de saúde materna e infantil, os serviços de saúde sexual e reprodutiva, os cuidados em regime de internamento e em regime de ambulatório , a vacinação e os serviços de saúde mental foram progressivamente restabelecidos. Nos cinco anos seguintes à fase aguda da emergência, a MSF prestou mais de 76.000 consultas em regime de ambulatório e mais de 5300 consultas em regime de internamento, assistiu mais de 4100 partos e tratou mais de 20.000 casos de malária.
Ainda assim, o acesso aos cuidados de saúde permaneceu frágil, particularmente para residentes de áreas remotas. A distância, os custos de transporte e a insegurança continuaram a afetar a capacidade das pessoas acederem a tratamento.
“Se o hospital fica longe e não se tem dinheiro, como se vai?”, questiona o paciente de Olumbe Sumail Issa. “Com a MSF, pude finalmente fazer testes para doenças graves, como a diabetes.”
Anos de conflito e de deslocações populacionais também afetaram gravemente os cuidados prestados a pessoas que vivem com VIH e tuberculose (TB), que exigem tratamentos ininterruptos de longa duração.
Antes do ataque de 2021, os registos do Ministério da Saúde mostram que cerca de 5000 pessoas recebiam tratamento para o VIH no distrito de Palma. O conflito perturbou gravemente os serviços ao interromper os cuidados prestados às pessoas. Quando os serviços de saúde começaram a funcionar com maior regularidade no final de 2023, os cuidados do VIH e da TB surgiram como uma lacuna crítica e em 2025 apenas cerca de 1600 pessoas estavam ativamente a receber tratamento para o VIH.
“No início, ninguém prestava atenção ao VIH”, recorda o responsável de atividades médicas da MSF em Palma Edwin Moshi. “Temos pacientes que conhecem o próprio estado, mas não conseguem seguir o tratamento por diferentes motivos. Temos pessoas que o negam. Perdemos alguns pacientes devido a um acompanhamento inadequado.”
No início, ninguém prestava atenção ao VIH. – Edwin Moshi, responsável de atividades médicas da MSF em Palma
No início, ninguém prestava atenção ao VIH.
– Edwin Moshi, responsável de atividades médicas da MSF em Palma
A partir de 2024, a MSF concentrou mais esforços no VIH, na TB e no VIH avançado. Em conjunto com o Ministério da Saúde, reforçámos os meios de diagnóstico, a capacidade laboratorial e o rastreio de pacientes. Em menos de dois anos, 348 pessoas receberam tratamento para o VIH avançado, muitas das quais chegaram tarde aos cuidados de saúde.
Inquéritos realizados pelas equipas de promoção de saúde da MSF em todo o distrito de Palma mostram que muitas pessoas compreendem o VIH e a TB através de sintomas e rumores, em vez de explicações médicas. O VIH é frequentemente visto como uma sentença de morte ou uma doença “trazida por estrangeiros” e a TB é temida como sendo altamente contagiosa através do contacto diário.
Algumas pessoas da comunidade acreditam que podem contrair o VIH nas instalações de saúde através de medicamentos ou testes. Outras adiam os cuidados porque a doença é atribuída a feitiçaria ou a causas espirituais, o que as leva a procurar primeiro a ajuda de curandeiros tradicionais. O medo do estigma e da exclusão social desencoraja as pessoas de fazerem testes e de cumprirem o tratamento. Nalguns casos, as pessoas escondem a condição ou deixam de tomar os medicamentos assim que se sentem melhor.
Para tentar dar resposta a estes desafios, a MSF investiu no envolvimento da comunidade, em aconselhamento e em serviços de saúde mental e trabalhou ao lado de profissionais de saúde comunitários, de profissionais de obstetrícia e de líderes locais para reconstruir a confiança nos cuidados de saúde.
“Fazemos sessões sobre o VIH e quando falamos sobre isso, as pessoas ganham coragem para continuar o tratamento”, descreve o profissional de saúde mental comunitária no distrito, Teodoro Joaquim Vicente.
Como parte deste trabalho, a MSF lançou uma campanha de “testar e tratar” em seis comunidades no distrito de Palma, em 2025. Esta abordagem combinou a sensibilização porta a porta, a realização de testes em pontos de encontro públicos e o reforço do acompanhamento de pacientes. Quase 5000 pessoas fizeram o teste do VIH, quase um terço das quais pela primeira vez. Embora a ligação precoce ao tratamento tenha sido inicialmente baixa, a melhoria do acompanhamento aumentou o número de pessoas que iniciaram tratamento antirretroviral para o VIH de 15 por cento para 77 por cento entre as rondas da campanha.
Os resultados evidenciaram tanto o progresso como a fragilidade contínua. A desconfiança, o medo do diagnóstico, a distância até às instalações e a inconsistência na qualidade dos serviços continuam a limitar a capacidade das pessoas de serem testadas e de seguirem o tratamento.
Todos os sete centros de saúde em todo o distrito de Palma estão novamente abertos, com a capacidade do Ministério da Saúde reforçada. A MSF concluiu as atividades médicas no distrito, marcando assim o fim de um projeto que evoluiu da resposta de emergência para a reconstrução do sistema de saúde e, agora, para a transição.
Ainda assim, os sistemas de saúde que foram danificados por anos de conflito e pela insegurança persistente levam tempo a recuperar. A falta de profissionais, a coordenação e comunicação limitadas entre as instalações de saúde, as longas distâncias e as ruturas de provisões de medicamentos continuam a afetar o acesso e a continuidade dos cuidados para as pessoas.
Palma continua a ser amplamente conhecida como o epicentro dos principais projetos de gás natural liquefeito de Moçambique, o que atrai investimento e atenção internacional. O trabalho essencial e demorado de reconstruir os cuidados de saúde e a confiança permanece muito menos visível. À medida que a MSF conclui as atividades, continua a ser necessária uma atenção sustentada para garantir o acesso a cuidados de saúde gratuitos e de elevada qualidade para as comunidades em Palma e em todo o Norte de Moçambique.
Na província de Cabo Delgado, a MSF continua a gerir projetos em Mocímboa da Praia e Macomia e em centros de detenção em Pemba. Prestamos consultas gerais, serviços de saúde materna e pediátrica, cuidados de saúde sexual e reprodutiva, tratamento para o VIH e para a tuberculose e apoio de saúde mental e psicossocial. Estas atividades são realizadas através de clínicas móveis e de sensibilização, do encaminhamento de pacientes para centros de saúde e do apoio a instalações médicas e hospitais em colaboração com o Ministério da Saúde. Também damos resposta a emergências em Cabo Delgado e noutras províncias em Moçambique.
Em 2025, realizámos mais de 100.000 consultas em regime de ambulatório, tratámos quase 50.000 casos de malária e assistimos a 7500 partos, em Moçambique.
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