A equipa MSF realiza uma sessão de psicoeducação em grupo em Nanjua, no distrito de Ancuabe, no Norte de Moçambique.

MSF lança resposta após nova vaga de violência em Cabo Delgado

Milhares de pessoas foram forçadas a abandonar as casas e fugir dos ataques no Norte de Moçambique

Em maio, o distrito de Ancuabe, na província de Cabo Delgado, região Norte de Moçambique, foi repetidamente atingido por ataques armados perpetrados pelo Estado Islâmico de Moçambique (ISM). Combinado com o medo generalizado de uma nova vaga de violência, estes ataques forçaram milhares de pessoas a fugir.

Mais de 5000 pessoas procuraram segurança em locais de reassentamento já existentes e em comunidades de acolhimento em Nanjua. Em resposta ao aumento das necessidades humanitárias relacionadas com a insegurança e o deslocamento, a Médicos Sem Fronteiras (MSF) lançou uma resposta de emergência, prestando cuidados de saúde primários através de clínicas móveis, apoio em saúde mental, bem como serviços de água e saneamento.

 

Jacinta Francisco é a responsável pela equipa de emergências da MSF em Ancuabe
Jacinta Francisco é a responsável pela equipa de emergências da MSF em Ancuabe. © MSF

 

“Em Cabo Delgado, a violência recorrente obriga milhares de pessoas a deslocarem-se repetidamente, agravando uma crise humanitária prolongada”, avança a responsável pela equipa de emergências da MSF em Ancuabe, Jacinta Francisco. “As pessoas que chegaram a Nanjua carregam o trauma de terem fugido e perdido entes queridos. Vivem com o medo constante do desconhecido. Ao mesmo tempo, tanto os residentes como as pessoas deslocadas enfrentam dificuldades para aceder a serviços de saúde essenciais e tratamentos.”

 

Medo e incerteza

Em apenas algumas semanas, as equipas da MSF realizaram mais de 1500 consultas, tratando em média mais de 150 pacientes por dia. As condições mais comuns foram infeções das vias respiratórias superiores, doenças de pele e malária – que é prevalente em crianças menores de 5 anos.

Para além dos cuidados médicos, as equipas da MSF observaram uma necessidade crescente de cuidados de saúde mental. Muitas pessoas relataram perturbações de sono, sintomas relacionados com o stress, dores no corpo e palpitações, frequentemente associados à incerteza quanto ao futuro, a deslocações repetidas, condições de vida difíceis, falta de bens essenciais e preocupações com a segurança e o bem‑estar dos filhos. Atualmente, não existem profissionais de saúde mental no centro de saúde local.

As famílias recentemente deslocadas também carecem de abrigo e alimentos, tendo fugido com pouco ou nada para áreas que já enfrentavam dificuldades para atender as necessidades básicas. Mais de 15 mil pessoas foram deslocadas no distrito de Ancuabe e em áreas vizinhas[1]; muitas já tinham sido deslocadas repetidas vezes durante o conflito prolongado em Cabo Delgado.

 

Acesso a cuidados

O acesso aos cuidados de saúde no Norte de Moçambique continua a ser gravemente limitado. Em Nanjua, moradores e pessoas deslocadas percorrem cerca de quatro quilómetros para chegar à unidade de saúde mais próxima, onde são obrigados a pagar para os tratamentos, embora faltem frequentemente medicamentos essenciais. A distância, a insegurança e a indisponibilidade dos tratamentos prescritos continuam a atrasar a procura de cuidados e a alimentar frustração e desconfiança nas comunidades. Muitas vezes, estes problemas só recebem maior atenção durante as emergências.

A MSF está a reduzir gradualmente as atividades, uma vez que as principais necessidades de saúde causadas por esta emergência foram atendidas. Como parte deste processo, a MSF irá doar medicamentos essenciais ao centro de saúde local, que é gerido pelo Ministério da Saúde, para ajudar a manter serviços gratuitos tanto para os residentes como para as pessoas deslocadas.

 

Uma clínica móvel da MSF foi instalada em Nanjua, no distrito de Ancuabe, para responder às necessidades de saúde da população face à nova vaga de violência.
Uma clínica móvel da MSF foi instalada em Nanjua, no distrito de Ancuabe, para responder às necessidades de saúde da população face à nova vaga de violência. © MSF

 

A Médicos Sem Fronteiras apela ao reforço urgente da cadeia de abastecimento de medicamentos nas unidades de saúde e ao acesso gratuito aos cuidados médicos, particularmente em contextos de emergência. Ao mesmo tempo, a MSF insta a uma resposta humanitária coordenada e sustentada para responder às necessidades de saúde, proteção e apoio psicossocial das comunidades afetadas por deslocações repetidas e pela violência recorrente no Norte de Moçambique.

 

Em Cabo Delgado, a MSF mantém projetos em Mocímboa da Praia, Macomia e Palma. Prestamos consultas gerais, cuidados de emergência, serviços de maternidade e pediatria, cuidados de saúde sexual e reprodutiva, tratamento para o VIH e tuberculose, bem como apoio à saúde mental e psicossocial.

Em 2025, realizámos mais de 100 mil consultas externas, tratámos cerca de 50 mil casos de malária e prestámos assistência a mais de 7500 partos. Operamos clínicas móveis e atividades de alcance comunitário, encaminhamos pacientes aos centros de saúde e apoiamos unidades de saúde e hospitais em colaboração com o Ministério da Saúde.

 

[1] Fonte: https://dtm.iom.int/reports/mozambique-ett-movement-alert-report-158?close=true

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