A Médicos Sem Fronteiras (MSF) é uma organização humanitária internacional que leva cuidados de saúde a pessoas afetadas por graves crises humanitárias. Também é missão da MSF chamar a atenção para as dificuldades enfrentadas pelos pacientes atendidos em seus projetos.
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Através da campanha, a Médicos Sem Fronteiras (MSF) Portugal procura aproximar o público do trabalho humanitário e refletir sobre alguns valores humanos, num contexto cada vez mais adverso à ação humanitária
Em 2025, enquanto os ataques contra cuidados de saúde continuaram a aumentar em contextos de conflito, os cortes no financiamento internacional agravaram a pressão sobre sistemas de saúde já fragilizados. Ao mesmo tempo, intensificaram-se discursos de deslegitimação do trabalho humanitário, colocando em causa a resposta de organizações independentes onde ela é mais necessária. É neste cenário que a MSF Portugal apresentou ontem, quarta-feira, 16 de setembro, em Lisboa, a campanha institucional Ser humanitário é ser humano.
Lançada numa primeira fase em formato digital, em maio de 2026, a campanha ganha agora presença no espaço público com uma instalação cúbica que estará até 28 de setembro na Praça da Figueira, freguesia de Santa Maria Maior, em Lisboa. Composta por elementos visuais da campanha e por uma face espelhada, a estrutura convida quem vive, trabalha ou passa pela cidade a parar, olhar-se ao espelho e refletir sobre o que significa ser humano hoje. O objetivo é aproximar o público de uma realidade frequentemente percecionada como distante, sublinhando que valores como a solidariedade, a compaixão e a resiliência não pertencem apenas à ação humanitária – fazem parte da nossa humanidade comum.
Além desta ação simbólica na Praça da Figueira, a estrutura cúbica da campanha Ser humanitário é ser humano será também instalada na estação de S. Sebastião do Metro de Lisboa (linha vermelha), de 28 de setembro até 9 de outubro.
Em 2025, os ataques contra cuidados de saúde atingiram níveis alarmantes: a OMS registou 1.348 ataques e 1.981 mortes associadas – mais do que o dobro das mortes reportadas no ano anterior. Esta violência concentrou-se em alguns dos conflitos mais intensos da atualidade: o Sudão registou o maior número de mortes associadas, 1.620, enquanto a Palestina e Ucrânia figuram entre os contextos com mais ataques reportados, com 125 e 19 mortes respetivamente.
Como consequência destes ataques, as comunidades ficam privadas de cuidados médicos vitais, uma vez que as infraestruturas de saúde não são reconstruídas ou as organizações humanitárias suspendem atividades devido a preocupações de segurança.
Em 2025, os cortes e a suspensão de linhas de assistência internacional agravaram a pressão sobre respostas humanitárias e sistemas de saúde já fragilizados. Os Estados Unidos, responsáveis por cerca de 40 por cento do financiamento global para programas de saúde global e ajuda humanitária, terminaram grande parte do apoio a iniciativas essenciais, apesar de este investimento representar menos de 1 por cento do orçamento federal anual.
A redução de financiamento traduz-se em serviços encerrados, cadeias de abastecimento interrompidas e menos capacidade de resposta. Segundo a OMS, no Afeganistão, estes cortes levaram à suspensão ou encerramento de 445 unidades de saúde em 2025, incluindo 203 equipas móveis – estruturas cruciais para rastreio, deteção precoce e referenciação, nomeadamente em nutrição.
O impacto humano é também mensurável noutros contextos. Na Somália, interrupções na ajuda fizeram parar durante meses envios de leite terapêutico, e as admissões de crianças com desnutrição grave em estruturas apoiadas pela MSF aumentaram de 1.937 para 3.355 (comparando os primeiros nove meses de 2024 e 2025). Na República Democrática do Congo, o cancelamento de uma encomenda de 100.000 kits pós-violação agravou lacunas num contexto em que a MSF prestou cuidados a 28.000 sobreviventes só na primeira metade de 2025.
Para a MSF, é uma responsabilidade moral denunciar o sofrimento e os desafios que testemunhamos. Nos últimos anos, porém, a nossa neutralidade tem sido posta em causa com falsas acusações de politização que minam a credibilidade do nosso trabalho humanitário em vários contextos.
Esta tendência crescente de utilizar o princípio humanitário da neutralidade como arma contra as organizações que se manifestam é talvez mais pronunciada no atual genocídio em Gaza, que temos denunciado com testemunhos de pacientes e dados médicos independentes que mostram a destruição dos serviços de saúde e a falta de acesso a bens essenciais.
No entanto, as nossas posições têm sido mal interpretadas como “tendenciosas”, em vez do que realmente são: uma extensão do nosso compromisso humanitário de mais de cinquenta anos de nos pronunciarmos sempre que Estados ou entidades perpetram ações ou campanhas prejudiciais à saúde e à segurança dos nossos pacientes e profissionais.
Quando o trabalho humanitário é alvo de campanhas de desconfiança, o que está em causa não é a reputação das organizações: é a segurança das equipas e, sobretudo, o acesso das pessoas a cuidados. A MSF continuará a agir e a testemunhar com independência guiada pelas necessidades dos nossos pacientes: porque ser humanitário é, antes de mais, ser humano.
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