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Em todo o Sudão, a guerra continua a agravar a fome, as doenças e as deslocações de pessoas, enquanto os cortes no financiamento humanitário por parte dos Estados Unidos e governos europeus estão a levar ao fecho de clínicas e a retirar medicamentos das prateleiras das que permanecem abertas
Quando Sedra viu pela primeira vez a filha recém-nascida, o próprio corpo dela estava em crise. A tensão arterial subia. A visão ficou turva, os ouvidos zumbiam e começou a tremer. Só conseguia pensar numa pergunta: “Será que a bebé vai crescer e viver, ou vai deixar-nos?” recorda. “Chorei muito. Não esperava que nem eu mesma sobrevivesse.”
Um médico internou-a na enfermaria do Hospital Universitário de Zalingei, no estado do Darfur Central. A recém-nascida precisava de cuidados neonatais devido a desnutrição com complicações. Hoje, a bebé está a ganhar peso e Sedra, ela mesma assistente médica, acompanha atentamente a evolução da filha.
Sedra conseguiu obter cuidados médicos a tempo, tanto para ela como para a bebé. Mas, para muitas pessoas em todo o Sudão, isso está longe de garantido. A guerra, as deslocações populacionais, os ataques contra os serviços de saúde, as dificuldades de circulação e a destruição de infraestruturas estão a aumentar as necessidades médicas das pessoas. E, embora os cortes no financiamento não tenham criado estas necessidades, estão a enfraquecer os serviços destinados a preveni-las, detetá-las e tratá-las.
Em Hamidiya, no Darfur Central, Safa encontrou segurança depois de fugir de El-Fasher e, posteriormente, de Kabkabiya, no vizinho estado do Darfur Norte. O pai dela morreu devido à guerra e a família dispersou-se. Safa não sabe onde os familiares foram parar. “A situação aqui é relativamente segura. Mas não há cuidados de saúde nem trabalho”, conta.
Antes da eclosão dos combates, Safa tinha concluído dois dos quatro anos de formação em enfermagem. Ainda mantém a esperança de conseguir terminá-la. Mas por agora, Safa, como muitas outras pessoas, concentra o tempo nas necessidades básicas, como a alimentação. “O dia está quase a terminar e não consegui comer nem uma única coisa.”
Uma organização internacional de ajuda humanitária deixou de prestar apoio ao centro de saúde localizado perto de onde Safa vive. Chegar a outra clínica em funcionamento custa-lhe cerca de 2 dólares nos transportes. Um trabalhador no Darfur ganha aproximadamente 1 dólar por dia, o que significa que a viagem custa cerca de dois dias de salário e obriga as pessoas a terem de escolher entre cuidados de saúde e alimentação. “Com esse dinheiro podia comprar comida. Se não houver comida, não pode haver saúde.”
As vacinas que anteriormente estavam disponíveis no centro deixaram de ser administradas, e os testes estão agora, em grande medida, limitados a malária. As crianças estão a adoecer com outras doenças, mas muitas famílias não conseguem pagar para procurar tratamento. O resultado? “As crianças morrem”, profere Safa.
“Estamos em apuros”
No centro de saúde de Hamidiya, um assistente médico, Jaffer, assistiu ao colapso dos serviços. Trabalhou ali durante 15 anos. O centro providenciava consultas médicas, cuidados de saúde maternos e pediátricos, serviços de nutrição e apoio a saúde mental, e estava dotado de uma farmácia que armazenava medicamentos para doenças crónicas. Após os cortes no financiamento, restam apenas sete voluntários.
“Agora que a organização humanitária foi embora, estamos em apuros. Não há medicamentos”, frisa Jaffer. “Costumávamos receber entre 150 e 200 pacientes por dia. Agora recebemos entre 30 e 40.”
Esta diminuição no número de pacientes não significa que as pessoas tenham ficado mais saudáveis. Simplesmente, deixaram de fazer a viagem até um centro que já não consegue tratá-las. As doenças continuam presentes – os serviços é que já não estão lá. Os voluntários continuam a regressar ao local, para proteger o equipamento, na esperança de que outra organização apareça.
O centro onde Jaffer trabalhava e onde agora se voluntaria faz parte de uma retração humanitária muito mais ampla. Em maio, a MSF reportou que tinha sido retirado apoio a mais de 45 centros de cuidados de saúde gerais no Darfur Central.
“Fechar uma clínica não faz desaparecer um único paciente”, sublinha o coordenador de emergências da MSF na região do Darfur, Sebastián Traficante. “Em vez disso, envia essas pessoas para a unidade seguinte: mais tarde, depois de uma viagem mais longa e mais cara, e, muitas vezes, num estado mais grave. E o hospital a que chegam pode já estar cheio. A MSF pode reforçar alguns serviços, mas não conseguimos absorver todos os encerramentos.”
“Sem medicamentos, o que pode o médico fazer?”
No Hospital de Kas, no estado do Darfur Sul, Rahma passou 18 dias ao lado do filho de 1 ano, que chegou em estado crítico, com meningite, malária e desnutrição aguda grave. Depois de mais de duas semanas de tratamento, a criança começou a recuperar. “Viajámos durante horas para chegar a este hospital”, explica Rahma. “O pequeno hospital perto da nossa aldeia fechou as portas e agora não há nenhum lugar próximo onde procurar cuidados. Mesmo que se encontre um médico, não há medicamentos. E sem medicamentos, o que pode o médico fazer?”
“Quando uma criança chega ao hospital depois de passar horas na estrada, podemos estar a tratar várias emergências ao mesmo tempo”, avança o médico e coordenador da equipa médica da MSF no Sudão, Saiful Islam. “Uma doença grave requer cuidados urgentes, enquanto a desnutrição grave deixa as crianças com menos forças para combaterem uma infeção e recuperarem. Uma clínica pode ser encerrada a quilómetros de distância, e as consequências médicas acabam por chegar às nossas enfermarias.”
Kas é apenas um hospital num dos estados do país. As Nações Unidas estimam que 33,7 milhões de pessoas no Sudão necessitam de assistência humanitária em 2026. A 11 de agosto, o plano de resposta da ONU, de 2,87 mil milhões de dólares, estava financiado em apenas cerca de 41 por cento. A Organização Mundial da Saúde indica que 21 milhões de pessoas não têm acesso a serviços de saúde e que 37 por cento das unidades de saúde não estão a funcionar.
A falta de alimentos é outro desafio com o qual as famílias se debatem. Cerca de 19,5 milhões de pessoas enfrentaram, entre fevereiro e maio de 2026, níveis de insegurança alimentar correspondentes a uma situação de crise ou pior, de acordo com a Classificação Integrada da Fase de Segurança Alimentar (IPC, na sigla em inglês), que prevê que 825 mil crianças com menos de 5 anos sofram de desnutrição aguda grave este ano.
Mubashir, uma criança pequena, passou 16 dias no centro de alimentação terapêutica em regime de internamento do Hospital Universitário de Zalingei. “Deram-lhe leite e medicamentos”, recorda o pai, Mohammed Khamis. Embora Mubashir tenha recuperado, regressará a uma casa onde continua a faltar comida. Restam menos organizações a distribuir alimentos e o próprio Mohammed apresenta sinais de desnutrição. “Não há comida para alimentar os meus filhos. Estamos a ficar fracos.”
À medida que os serviços diminuem, a pressão sobre os que permanecem abertos aumenta. As admissões nos hospitais apoiados pela MSF em Zalingei e Rokero aumentaram 22,5 por cento entre janeiro e abril de 2026, em comparação com os mesmos meses de 2025. Os cortes no financiamento, por si só, não explicam este aumento, uma vez que os combates, as deslocações populacionais, as doenças e a falta de comida também contribuem para ele. Mas cada clínica que fecha deixa mais pessoas com menos opções.
“Cortes no financiamento estão a reduzir a resposta”
Os efeitos da redução da resposta humanitária também são visíveis no Leste do Sudão. O campo de pessoas refugiadas de Tenedba tem cerca de 18.400 residentes, que, devido ao estatuto de refugiados, não podem procurar cuidados de saúde fora do campo.
Oito organizações deixaram de trabalhar no local e as que permanecem relatam dificuldades de financiamento, funcionando com horários e serviços reduzidos. Em junho, uma organização humanitária deixou o campo de forma repentina, deixando as pessoas sem serviços para partos seguros, incluindo cesarianas de emergência. A MSF providencia agora os partos de emergência no campo e encaminha as mulheres que necessitam de cirurgia para Al-Gedaref ou Hawata, a três ou quatro horas de distância.
As viagens de várias horas tornar-se-ão ainda mais penosas, com outro desafio iminente no horizonte. “A época das chuvas está a chegar, e com ela a malária”, alerta Jaffer. As chuvas tornam todas as distâncias ainda mais árduas de percorrer, à medida que as estradas se tornam difíceis ou impossíveis de utilizar. Os encaminhamentos ficam mais lentos, o fornecimento de provisões é interrompido e a malária, as doenças transmitidas pela água e a desnutrição sazonal aumentam em simultâneo.
Mesmo que os serviços começassem a regressar, não voltariam a funcionar de um dia para o outro. Uma transferência responsável requer tempo, profissionais formados, medicamentos, transportes e os recursos contínuos necessários para manter os cuidados em funcionamento.
“A guerra está a aumentar as necessidades no Sudão; os cortes no financiamento estão a reduzir a resposta”, sustenta o coordenador-geral da MSF no Sudão, Muhammad Ibrahim. “O trabalho da MSF no Sudão não depende de financiamento dos governos. Mas quando o financiamento desaparece de outros serviços de saúde, as clínicas fecham, os pacientes têm menos lugares onde procurar cuidados e a pressão desloca-se para as unidades que permanecem, incluindo as nossas. Os doadores devem proteger os serviços de saúde essenciais e proporcionar financiamento sustentado e flexível às organizações que dele dependem.”
Sedra consegue agora imaginar a filha a crescer, talvez para se tornar engenheira ou médica. “Ela ainda está aqui”, declara. No Sudão, “aqui” significa “viva”.
Esse futuro existe porque havia uma enfermaria aberta, um médico presente e o tratamento de que precisavam estava disponível. Em todo o Sudão, cada vez menos famílias podem contar com todos estes três elementos. A sobrevivência está a depender da próxima refeição, do próximo medicamento, do próximo encaminhamento seguro para um hospital, da próxima clínica cuja porta esteja aberta.
Os pacientes no Sudão continuam aqui. As clínicas, os medicamentos e as organizações de que dependem têm de permanecer.
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