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A médica Natasha Reyes conta a experiência que teve no Bangladesh com cuidados de saúde sexual e reprodutiva
“As mulheres que são expulsas das suas casas ficam particularmente vulneráveis. Têm necessidades específicas de saúde que são exacerbadas quando precisam se deslocar; as mulheres em movimento perdem o acesso a cuidados de saúde. Podem engravidar e ter o parto em contextos de risco de complicações que podem ser fatais.
Observei isto em 2017, quando comecei a trabalhar com mulheres rohingya numa equipa de emergência Médicos Sem Fronteiras (MSF). Fomos enviados ao distrito de Cox’s Bazar, no Bangladesh, para dar resposta ao êxodo sem precedentes de cerca de 700 000 refugiados rohingya que fugiam de perseguição no estado de Rakhine, em Myanmar.
No meu trabalho, nesta resposta de emergência durante três semanas, fui encarregada de avaliar as necessidades dos refugiados recém-chegados. Cuidados de saúde sexual, reprodutiva e materna eram desesperadamente necessários naquele momento.
Voltei ao Bangladesh em março deste ano como coordenadora-geral da MSF no país, três meses depois de termos alcançado a marca de um milhão de consultas prestadas a refugiados e pessoas da comunidade anfitriã em Cox’s Bazar. Este número não deve ser comemorado, no entanto. Pelo contrário, revela que mais precisa de ser feito e que os problemas persistem.
Caminhos íngremes e escorregadios para um parto seguro
Uma descoberta que me impressionou especialmente foi o pequeno número de consultas que a MSF ofereceu para partos e assistência pré-natal. As nossas equipas auxiliaram apenas em 2 192 nascimentos num ano. E as consultas pré-natais representavam só 3,36% (35 392) do total de consultas.
Isto mostra que a maioria das mulheres grávidas no campo de refugiados tem o parto em casa. Fazem-no com a ajuda de parteiras tradicionais, o que não é necessariamente um problema em si mesmo. Porém, as condições nas casas em que vivem são precárias para o parto; moram em casas improvisadas feitas de bambu e com piso de terra num acampamento sobrelotado. É preciso trazer água de fontes fora de casa, o que às vezes exige uma longa caminhada. As instalações sanitárias são comunitárias. Estas condições podem representar riscos para a saúde da mãe e do bebé, além de outras complicações que podem surgir durante o parto.
Pode ser difícil gerir partos complicados porque as mulheres têm de fazer o caminho até uma estrutura de saúde. Uma mulher em trabalho de parto provavelmente terá de ser carregada por trilhos escorregadios e montanhosos, geralmente numa cadeira pendurada entre varas, até a unidade de saúde mais próxima, a qual pode estar a uma distância considerável. É ainda mais complicado à noite, quando os caminhos não estão iluminados, e a mulher pode ter de esperar até ao amanhecer. Pode demorar horas até que a grávida chegue a uma estrutura de saúde, o que põe em risco a sua vida e a do bebé.
As equipas MSF trabalham na comunidade para informar as mulheres e as famílias sobre a disponibilidade e a importância dos serviços de maternidade gratuitos e de qualidade. Isto é feito para incentivar as mulheres a acederem a cuidados de saúde reprodutiva. Também garantimos que os nossos serviços facilitam o parto seguro com privacidade e dignidade, ou a transferência da parturiente para estruturas mais especializadas quando precisam de cuidados avançados.
Nenhuma solução de longo prazo à vista
Antes que eu percebesse, a minha passagem como coordenadora-geral tinha terminado. Parto sabendo que o trabalho está longe de terminar. Os refugiados estarão lá no futuro próximo e teremos de continuar a cuidar deles para restaurar a sua dignidade no máximo possível.
Um desafio pessoal para mim é testemunhar diretamente a situação dos rohingya no Bangladesh e não ver nenhuma solução para o sofrimento deles. Estão presos numa situação difícil – vivem em condições longe do ideal no Bangladesh e não conseguem voltar para casa em Rakhine, Myanmar, porque não se sentem seguros lá. É um problema complexo que requer uma solução política. Pode ser desanimador apoiar uma população em perigo cujo principal problema não podemos resolver nós próprios.
O que mais me impressiona ao deixar o Bangladesh é a força do povo rohingya nos campos de refugiados. Lembro que devemos continuar a chamar a atenção para a situação em que estas pessoas vivem, de forma a que o mundo não esqueça que existe quase um milhão de seres humanos presos no limbo das colinas de Cox’s Bazar.”
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