A Médicos Sem Fronteiras (MSF) é uma organização humanitária internacional que leva cuidados de saúde a pessoas afetadas por graves crises humanitárias. Também é missão da MSF chamar a atenção para as dificuldades enfrentadas pelos pacientes atendidos em seus projetos.
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Em artigo, o paulista Otávio Omati conta como é o trabalho no hospital de Médicos Sem Fronteiras na cidade de Lubutu, no leste do país
"Escrevo, desta vez, da República Democrática do Congo. É um país grande, cuja coluna vertebral é o Rio Congo, que depois de percorrer cerca de 7.400 km, acaba desaguando no Oceano Atlântico. É um país rico culturalmente e em recursos naturais, como os minérios. Mas os benefícios provenientes da exploração destes recursos nunca chegaram às mãos da população, mas sim aos bolsos de alguns poucos. Depois de anos de guerra civil, o país escolheu seu presidente democraticamente no ano passado, mas a população ainda sofre as dolorosas conseqüências de anos de corrupção, abuso de poder e exploração.
Estou no leste do país, numa pequena e pacata cidade chamada Lubutu. Encravada no meio da floresta tropical, a natureza aqui é exuberante e o verde predomina para onde quer que se olhe. A estrada que corta a cidade tem funções múltiplas: acesso aos grandes centros urbanos, pista de pouso, causar acidentes de trânsito, além de passarela de crianças e mulheres carregando água, mantimentos e tudo o que se possa imaginar sobre a cabeça (uma imagem marcante da África).
Trabalho em um hospital de nível secundário, gratuito, gerenciado exclusivamente por MSF, cujo número de beneficiários ultrapassa 100 mil pessoas. Até seis meses atrás, esta população não tinha acesso a cuidados de saúde. A situação sanitária era catastrófica e os índices de mortalidade altíssimos. As necessidades são enormes e é no dia-a-dia que conseguimos ver que estamos fazendo alguma diferença. Desnutrição, malária, anemia, doenças respiratórias, diarréia são os problemas mais comuns e que antes matavam muitos, mas que agora podem ser tratados com dignidade no hospital.
Os casos cirúrgicos também são bastante comuns e temos trabalhado incansavelmente, praticamente sete dias por semana, já que as emergências não têm hora marcada para chegar. Cesáreas, apendicites, obstruções intestinais, hérnias encarceradas fazem parte do nosso dia-a-dia de trabalho e são cirurgias que realmente acabam salvando vidas. A região não tem problemas de segurança e, por isso, felizmente, ainda não recebemos nenhuma vítima de violência armada. Mas por causa da falta de transporte público, as pessoas viajam de maneira muito perigosa, espremidos sobre a caçamba de pick-ups, e não é raro que uma delas se acidente, resultando em um número altíssimo de vítimas.
Incansavelmente foi só uma expressão porque, na verdade, é bem cansativo. Ainda bem que o futebol também é mania por aqui e dá para bater uma bolinha de vez em quando para descansar um pouco o corpo e a mente. No primeiro dia que botei os pés no hospital, a primeira coisa que me disseram foi: queremos ver um brasileiro jogando bola com nossos próprios olhos, ao vivo, sem ser na televisão! Eles saíram satisfeitos e felizes depois da primeira apresentação de um brasileiro em Lubutu tenho que admitir modestamente. (rs)
O trabalho está sendo bastante gratificante, não só pelos resultados obtidos, mas também porque as pessoas merecem. Elas são simpáticas, doces e muito alegres. Tenho aprendido muito com a força interior destas pessoas e posso dar alguns exemplos. Uma menina de 12 anos teve sua perna amputada por causa de um tumor maligno e, no dia seguinte à operação, vê-la sorrindo docemente e pedindo um par de muletas para sair da cama foi uma surpresa emocionante para todos. Quando ela deu os primeiros passos dois dias depois da cirurgia foi motivo para encher de lágrimas os olhos de muita gente.
Outro menino de 15 anos chegou ao hospital com uma fratura grave na perna com seu pé praticamente virado para trás, como o folclórico curupira. Apesar de doer só de lembrar desta imagem, ele não chorava e só dizia: eu estou bem, eu estou bem! Depois da cirurgia, ele não podia sair da cama por causa da imobilização, mas nem assim ele perdeu o bom humor. Tínhamos feito o seguinte acordo: eu ensinava um pouco de inglês e ele, em troca, me ensinaria algumas frases no dialeto local. Levei bastante a sério o acordo ensinei algumas frases simples em inglês, mas eu achava estranho quando as pessoas riam tanto depois que eu falava o que o pequeno tinha me ensinado.
Achei que riam de admiração e surpresa, mas depois de alguns dias, descobri que eu estava falando para todo mundo: “estou indo fazer xixi”, quando pensava que estava falando “está tudo bem”!!!! Por causa desta maneira de encarar a vida, com otimismo e bom humor, os dois conquistaram o coração de todos e se recuperaram muito rapidamente. E pensar que tem gente que tem tudo e ainda consegue passar a vida inteira reclamando."
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